sexta-feira, 13 de julho de 2012


MIRA, para Sandro Ornellas


Eu fotografei a mala
Na volta da viagem impossível
fiz o inventário do que me pesava e
atravancava os passos e o caminho.

Eu fotografei a sala
não porque rima
mas porque foi neste cômodo
que olhei 
peça por peça
cada pérola 
do meu tesouro.

Eu fotografei a vala
a rima aqui é necessária
pois é o fim 
de quem transpõe a sala
cheia de malas
e seus piratas.


Eu fotografei a falha
o viés, a fruta podre, a sopa rala.
Pesei, ponto por ponto, 
a minha fala
e ouvindo,
de todos os sinos,
um chamado,
mirei exata a curva ladra.

Eu fotografei a data,
e fiz ensaios,
valsa emendada,
a dança torta,
a velha estaca,
o grito rendado 
furos no espaço.

Eu fotografei a bala,
seu movimento,
função datada,
a sua cor, seu peso e fardo,
cada centímetro do 
seu tamanho, ofício e prazo.
Até o momento
em que a bala
correu tão solta
e me fez:
nada.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A roda



Deixo cair um pingo colorido
na folha branca
e este é meu ponto de partida.
Finco neste ponto, exato,
uma estaca e
faço um giro prévio com a corda nova.
Ao redor deste mundo, recém desenhado,
fecho os olhos
para que os pés encontrem as fronteiras.
Eu sou a minha própria mãe
e crio também uma imagem para o pai
que serei
um dia.
Sou agora a deusa dos metais
e vou forjando
no calor intenso
escudo, lança e flechas.
O ventre está seco,
aprendo a sonhar com as guerras.
Retiro os livros que contam histórias
de mulheres quietas
esperando boiarem feijões defeituosos
esperando que o vento
esperando que o sangue
esperando que o homem.

Na hora do parto,
uso a faca afiada e
me separo,
em duas.
E estas, multiplicadas,
até chegarem ao número necessário
de um exército
sem memória
sem choro
sem lamentos
sem bordados imóveis.

Um exército de outras
mulheres
que sou,
até que eu não veja mais o horizonte
coalhado de cópias de mim mesma,
para seguir
em formação militar
em busca dos livros
das cantigas
dos mitos
onde
uma mulher adormece
uma mulher espera
uma mulher grita
uma mulher grita
uma mulher grita.

E eu, e elas todas que sou,
marchamos,
prontas para habitar outra ficção
outro começo
vamos agora
divertidas
querendo ditar mais de dez mandamentos
querendo deixar os cabelos crescerem antes de sermos crucificadas
querendo dividir os mares todos ao meio
querendo dominar a divisão dos quartos das espécies que residirão na arca.

Nossa história,
na língua nova que criaremos,
começará assim:
no início havia uma mulher e seu umbigo,
e ela começou a criar navios
e por isso inventou os mares
e pediu luz para suas navegações.

No início, era escuro.
Mas elas chegaram, armadas.
E gritaram o mundo outra vez.

Rio de Janeiro, madrugada, Eliana Mara Chiossi

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mudança de endereço

Talvez uma enchente que provocou desabamentos,
Talvez briga entre vizinhos,
ou o desejo de ter um jardim na frente da casa,
quem sabe até a chegada de outro filho,
e muitas outras alternativas
poderiam explicar,
e nada diria do que me faz
comunicar que
este Mundo estará aberto para visitações.
Não é gentil que os amigos
cheguem aqui e batam com a cara na porta.
Mas a partir de hoje,
se quiserem um pouco do que escrevo
favor seguir para este endereço:
http://dasalmasdestemundo.blogspot.com/

Agradeço, carinhosamente, a todos os seguidores, visíveis ou invisíveis, deste mundo ou de outros.
Com toda a gratidão,

Eliana Mara Chiossi

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Texto de meu amigo Nuno Ribeiro


nem saúde nem sustento

É fácil pensar que a única solução é ter um emprego, sujeitarmo-nos às condições que ali encontrarmos e irmo-nos aguentando, mesmo se sobra pouco tempo e pouco dinheiro para viver, depois do tempo que se gasta a trabalhar e do dinheiro que se gasta para sobreviver. Difícil, pelo menos para mim, é imaginar outra forma de viver. É fácil fantasiar sobre ter uma quinta, sobreviver com o que a terra dá, ser autónomo e livre. Difícil, pelo menos para mim, é sair da segurança estagnada para o relento da liberdade.

Porque faço a pergunta a mim próprio, muitas vezes, "afinal, porque continuo, porque me sujeito a isto, todos os dias da semana?", pergunto-me porque continuam as outras pessoas, porque se sujeitam todos os dias as pessoas a uma escravidão suave, em que recebem dinheiro e não são chicoteadas, mas em que tudo está feito para a sua subjugação, tudo conspira para manter as pessoas com rédea curta, obedientes e acéfalas. Porque me sujeito eu, porque nos sujeitamos nós?

Não é suficiente a resposta mais óbvia e sensata: porque não nos podemos dar ao luxo de ficar sem emprego e sem sustento. Não é suficiente. Há-de haver qualquer coisa nas entranhas, no profundo da nossa psique, algures dentro de nós, algum impulso para a procura de felicidade e bem-estar. Não quero aceitar que tenhamos tão grande, que eu tenha tão grande, capacidade para fazer da insatisfação um ofício e do engolir de raiva uma arte. Não quero acreditar que não haja uma criança, um rebelde, um sonhador, algo de luminoso e exigente, dentro do que somos, que esteja disposto ao risco de ser feliz - muito mais do que à garantia de infelicidade.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Montagem 2

Um cego quer saber o que é uma rosa.
Começo a buscar um caminho para descrever uma rosa, ainda não vista, antes que o cego possa tocá-la.
Entrego em suas mãos uma pedra. 
Para explicar a rosa por contraste.
Se o vento toca a pedra ela desce. 
A rosa, que é feita de partes, em partes, voa, ao toque do vento.
Então, diferente da pedra, a rosa é pura abertura.
Se a vemos fechada, no início, botão ainda, isso é truque para enganar pessoas apressadas. 
Véspera da festa generosa, em que todos os portões serão abertos. 
O cego revira a pedra nas mãos, aperta, testa a sua superfície e textura. 
A rosa não se entrega assim, uníssona. 
E ao tocar todo seu conjunto, o cego saberá que a beleza da rosa está protegida. E este conjunto é uma metáfora: a dama que não pode ser alcançada antes da superação. Caule com espinhos, obstáculos para testar os motivos. 
Para que chegar ao cerne da rosa, se não for para admirar e, depois, compartilhar?
Mas como chegar ao cerne da rosa sem desmontá-la, sem entender que no final, a rosa é seu próprio vazio?
Dizer ao cego que a rosa é uma beleza de pedaços. Uma beleza montada. Entregar a rosa desmontada,
retalhos de veludo, regularidade nas formas, cada pétala tão semelhante. 
Sem aceitar a insignificância aparente deste conjunto espalhado, não há como entender a beleza da rosa inteira.  

domingo, 4 de setembro de 2011

Montagem

O copo jogado no chão, espalha partes variadas do que era. Ao ser lançado, com a força de humores alterados, o copo resta em pedaços. Alguns, maiores, ainda trazem a aparência de um copo. Talvez a parte redonda, mais grossa, do fundo. Ou então, a borda, pela sorte, resistente. O mais, são pedaços pequenos, detalhes incompletos, escrita interrompida, uma frase que perdeu toda a sintaxe. O corpo do copo, desfeito, tem partes ilusórias, ao lembrar semelhança com outros objetos feitos do mesmo vidro. Vidro, vida frágil, sempre. O copo, sem noção, espalhado no solo, distante demais de algum retorno.

Modelo

A chuva chega até mim como o exercício de desenhar o nu, fixado na memória.
O nu, exposto aos meus olhos, para o registro fiel, se move e desvia minha atenção, porque respira.
Modelo ao vivo, a chuva cai sem repetições. 
Quero captar seus movimentos, enquanto ela se manifesta, quase indiferente.
A trama do vento é quase polêmica. 
Pedra no caminho do desenho.
O vento passa e são os pensamentos do modelo vivo. 
Pensamentos que retiram o olhar que já era um traço definido.
A chuva fustigada pelo vento é corpo que viaja para longe, sem que eu possa
desenhar o contorno desta alma.
 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Corredores

Importa responder em que cidade você mora? Será sempre uma cidade que residirá no espaço dos seus dias. Uma cidade nova com luzes novas. Uma cidade nova e comportamentos semelhantes. Onde reside o mistério da distância. O frenesi diário pode ajudar você a esquecer. E a diluição está garantida.Você preenche fichas, frequenta igrejas, anda rápido, vê as ofertas das vitrines e é capturado por muitas armadilhas que brilham. A cidade dorme e acorda. E você faz parte do desfile diário. Roupas para lavar, louças para lavar, o que vamos comer, onde vamos esticar a noite, o que comprar, o que jogar fora. Descartável, cada dia se repete, e todas as histórias possíveis já foram vividas. Não há mudanças ou cidades novas. Você é sempre isso: resíduo, precariedade e várias versões da ilusão.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Nada

Se fosse possível dividir o nada
em pedacinhos.
E então, mirá-lo, bem de perto, quase tocá-lo.
O nada chega assim, inteiro,
um bloco todo branco,
bloco de gelo, parede sem discurso.

E o nada quer passar
pela garganta
mas não há como mordê-lo
menos ainda mastigá-lo.

Fica assim, o nada entalado,
boiando no ar
sem endereço
o nada me acompanhando
sombra mais que silenciosa,
o nada,
onipresente,
Deus é o Nada,
quando o Nada se apossa de mim
e leva embora a fé
que nunca tive.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Começando um conto

No dia em que ela chegou para morar na nossa rua, era meu aniversário. Eu me lembro porque o caminhão de mudança atrapalhou a chegada da Kombi com os recreadores. Meu aniversário de dez anos e aquela menina querendo tirar o brilho da minha festa. Só muito tempo mais tarde fui entender que ela, Tânia, iria salvar minha vida.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pavão

Me irrita um pouco a insistência do sol.
Diariamente, sem falhas, funcionário metido a besta,
querendo se exibir para o patrão,
este patrão sempre em viagens,
o sol, funcionário puxa-saco,
que não falta nunca ao serviço.

Me irrita mesmo este sol
em dias que chega disfarçado,
com auxílio de um trio de nuvens sorrateiras
ou então, espalhafatoso,
puro pavão.


Me irrita este sol,
sempre aqui,
sempre exibido,
sempre me dizendo
que ganhei mais
um dia.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

I.M.L

Eu andei desaparecida por uns tempos. E os via, em cada esquina, procurando restos do meu corpo. Ou rastros. Ninguém viu quando eu saí de casa, mas me lembro de ter batido a porta, com força. Lembro bem que ao bater a porta com força, fez-se um barulho. E começaram a procurar meu corpo, imaginando encontrá-lo aos pedaços, no freezer; visitado pelas moscas, no quintal de uma casa abandonada; crivado de balas no lugar ermo; sem a cabeça, ao lado de uma carta. Eu estava sem dar notícias há tanto tempo, e eles começaram a dizer que me conheciam e talvez até sentissem falta do barulho que eu fazia. Assim, desaparecida, eles lembraram de abrir a porta do quarto onde eu vivia. E tudo que queriam saber estava ali.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Natureza morta

Olhar para a fruta. Dar fome a este olhar. Deixar que o olhar tome posse da fruta. Observar sua aparente imobilidade. A fruta está em movimento. Movimento das cores, movimento das células. Até que se torne outra coisa, sua própria morte anunciada, a podridão invasiva, invertebrada.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Terapia para quem tem medo de voar

Para quem tem medo de voar
é indicado
o corte regular das asas.
Asas rentes ao corpo, bem aparadas

Controla-se o medo de voar
Deixando os olhos cerrados
e mantendo a respiração vagarosa,
lenta até o ponto em que o
corpo seja impedido de qualquer dança.

O medo de voar, mal desnecessário e contagioso,
exige medicação líquida,
para que o ventre fique empanturrado
e provoque visões de susto no meio da noite.

O medo de voar tem solução:
asas rentes,
passos lentos
e o permanente
esquecimento dos céus.

domingo, 31 de julho de 2011

Mutação

Outro poema para Nilson Galvão


Um tempo de poucas palavras.
Uma época de tanta chuva, que dispensa palavras.
Se a chuva é a eloquência, para que usar palavras agora?
Viajando para este país que sou eu mesma,
turista sem mapas
e esquecida das rotas.


Um tempo de muitas perguntas.
Uma época de descrença nas respostas, prontas ou em elaboração.
Se andam por aí divulgando informações exaustivas, incríveis e velozes,
para que estaria eu acreditando em alguma certeza?
Viajando para esta casa que sou eu mesma,
perco as chaves.
Lavo toda a louça
e os armários, onde a louça deveria ser guardada,
desapareceram.
E espero então, como Alice,
uma porta pequena,
um coelho gago,
um vidrinho com poção mágica,
para encontrar alguma maravilha.

domingo, 17 de julho de 2011

O domingo

A chuva cai e não deixa opção para a calçada. A chuva cai e a roupa pendurada se altera. A chuva cai e encharca, alaga, inunda. Mas esta operária da perfeição, ao cair, lava. E tudo se renova. Ainda que reste, ao final da mistura do trabalho da chuva e dos entulhos antigos, uma lama feia e incômoda. A chuva cai e faz a lavagem sistemática. O que se agrega ao seu trabalho são seus ossos. E todas as covas abertas podem ser poços sem tamanho.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vulcão


Para Claudio Santana, autor da foto

As cores
enganam e
subitamente
o vulcão
é um quadro.

Os ventos
enganam e
subitamente
as cores
são mágicas.

A mágica
engana e
subitamente
o vulcão
é mal.

Mas o vulcão que se ergue em sua altura
que expressa
seus nervos exaltados
é o vulcão benéfico
da orquestra afinada.

Vulcão, ou trovoadas,
águas jorrando
ou pedras apressadas,
tudo
que é vivo e
explode em sua hora
é sempre
o sinal
da vida
realizada.

domingo, 3 de julho de 2011

Passado

O sonho. E tudo é sonho. Passou. E tudo passa. O sonho. E tudo é delírio. Fez abrir uma ferida. E tudo pode doer se você desejar tocar a realidade das coisas. Não há realidade nas coisas. Tudo que existe agora é apenas o sonho de que existe algo, na ilusão de ser concreto o corpo do instante. Uma cobra desarma o bote porque tem preguiça. Uma lesma não pode acelerar o passo, mas não é verdade que isto seja necessário. Aos olhos da lebre, a lesma é um desafio.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Estações

Para Chorik


Mais do que Vivaldi, quem poderia tocar a alma das estações?
Eu, figura mensurável, sustentável por dois pés,
o número justo de braços, boca e
uns cabelos plásticos, que sonham em ser desenhos.

Eu, assustada com um frio, este, que inaugura outro tipo de cansaço,
respirando curto, pisando devagar para não olhar de frente
aquelas pessoas que não olham de frente.

A cidade nova é uma pergunta.
Não faz diferença alguma se frequento bares, mercados, ruas e poças dágua desta cidade.

Um número a mais,
um transeunte desnatural,
eu, andando com minha identidade plastificada na bolsa.


Mas, se alguém pudesse olhar
o universo que é minha bolsa
veria que
minha identidade plastificada
documenta
o universo que é
minha alma.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Quieta

De repente
por dias seguidos
a palavra fugiu.

Depois, outros dias vieram,
e nada além de verbos ordinários,
usados para pedir água
ou ir ao banheiro.

E eis que,
num dia sem sol,
chegaram todas,
enfeixadas num ramo florido,
flores sem endereço,
gestos indefinidos
e sentimentos vagos.

As palavras chegaram
e me pediram:
silêncio!