O MUNDO TEM INSCRIÇOES SEMPRE ABERTAS

Publicado em 2009, a partir de textos postados aqui no blog, pela Editora Escrituras, de São Paulo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Temporal e queda de árvores

Tristeza não veste roupas novas
nem escolhe outro modelo de sapatos
saí pela rua com sapato apertado
roupa amassada
nem se importa

Tristeza é relaxada
deixa a cama por fazer
não tira o lixo
e deixa restos de comida estragando na geladeira


A tristeza rói unhas e
nem liga se indicam que há restos de comida entre os dentes
arrota bem alto, coça o saco na frente das mocinhas
e se for o caso
manda todo mundo para o inferno

A tristeza é uma funcionária desiludida
cansou de esperar aumento de salários
então,
quando sai
veste qualquer roupa, calça qualquer sapatos
e nem liga se está chovendo

Ela sabe que ao chegar perto
eles é que precisam estar protegidos

Com todo gás

Olhos cansados. Uma noite longa. Lembranças recortadas da última conversa:
- Eu estou aqui porque preciso de uma resposta. Onde foi que eu errei? O que faço agora para consertar?
- Somente Zoey pode encontrar as respostas. Só ela pode se salvar.
O gás envolvendo a casa toda arrumada. As instruções recebidas por email minutos antes. O zelador do prédio exibindo a camisa preferida. Caixas de livros com endereços, escritos com letra trêmula, nas etiquetas retangulares. Estranhamente, sobre o piano, flores brancas.
O cigarro aproxima pessoas exaustas. De vez em quando uma piada desconcerta mas faz rir. O café é horrível. E afinal de contas, quem está melhor é o morto. Deitado, aquecido, sem dívidas, e sem nada que o obrigue a acordar para enfrentar o trânsito caótico na manhã chuvosa.

Todos somos contadores

Esse retorno ao blog, depois de tanto tempo sem condições de escrever, eu dedico ao Chorik. E ele sabe bem os motivos.
Depois do feminismo e dos movimentos de libertação de todas as minorias, o amor ficou encaixotado. Hoje, para amar, é preciso ter um bloquinho de anotações. Ou talvez uma planilha. Porque lemos Freud, Lacan e Foucault. E sabemos muito bem o que significam certas expressões, alguns trejeitos e os variados tons de voz que usamos para conseguir o que queremos. E o que queremos pode ser uma carona, um anel com diamante, férias no Havaí, casa com piscina, filho adotivo ou café da manhã na cama. Mas somos atualmente tão espertos contadores que fazemos uma tabela de perdas e ganhos e o café na cama saí, se em troca houver uma massagem nos pés, e sem croissant cujos preços são abusivos e é sempre bom levar a dieta em consideração. Não temos mais utopia alguma sobre amor incondicional. Ninguém mais me dará o céu. Ninguém mais vai até a lua colher um fiozinho de água para me tirar a sede. O homem que diz me amar como ninguém me amou diz que morreria por mim, mas antes pergunta o que tem para o jantar.

sábado, 31 de outubro de 2009

Deserto

Para Wilson Neves, poeta féerico das imagens


Não é preciso nenhuma poesia nova
para habitar as porções desertas do mundo
No deserto
os grãos espalhados fazem todo o sentido.



Não é preciso nenhuma poesia nova
ou versos
lutando para despertar
o sono antigo e demorado
das pedras no deserto.



Não é preciso nenhuma poesia nova
ou imagens extravagantes
querendo provar que o deserto
precisa ser descrito e enaltecido

O deserto está para sempre ali,
na luta diária contra o vento,
na luta diária contra a noite fria,
na luta diária
do grão e da pedra,
contra os pés insistentes
e as palavras barulhentas dos ciganos



terça-feira, 27 de outubro de 2009

Da série: Escrevem muito melhor do que eu


AS MUSAS CEGAS

V

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
- E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.

Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
- Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. - Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
e doado às coisas mínimas.

Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
- Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
- não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.

Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito

nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno
.

Inutilidades

Andei por aí, lendo uns blogues, umas revistas eletrônicas. E num destes blogues um cara diz que nem vale a pena detonar um blog, quando a gente tem vontade de desligar o blog, porque depois, se quer voltar, tem o processo, que é quase previsível, de dizer, olha aí, deu uma recaída e voltei. Pensando nisso, não sei se a recaída, no meu caso, é manter o blog ou desligar o blog por uns tempos. Mas há momentos de ressaca. Overdoses da vida, em que o blog vira algo a mais para dar trabalho. Deve ter algo de patológico neste gesto de se expor num blog. E para cada um, a patologia deve ser explicada de uma maneira singular. Fico pensando que patologia doida é a minha que me faz ter um blog, eu que tenho pouquíssima resistência a rejeição. Talvez seja a doença da vaidade, da oscilação estranha entre ser tímida e espalhafatosa. Caetano, de vez em quando, me traduz. Eu que não sei respeitar ainda, como devia, as minhas risadas, me irrito comigo mesma quando fico abraçada às minhas lágrimas. E tendo dificuldades para aceitar a existência de deus, percebo que ele também não fala mais comigo sobre certos assuntos. Estou planejando um tempo de revisar, reescrever meus contos, guardados, esperando na fila. Me dá enjôo ler meus contos outra vez. Queria achar uns amigos dispostos a ler estes contos, que tivessem fala mansa, palavras doces para meter o pau, dizer assim: olha, esse tá ruim, não dá pra publicar não. Tenho medo que apareça alguém corajoso e diga: Não tá pronto o livro. Tem que mexer muito. Acho que não estou pronta para ouvir isso. E para o segundo livro, estou com mais medo que antes... Tem uns 4o e poucos contos, que considero terminados. Mas não faço idéia de quais deles merecem até esse investimento de reler, reescrever. E também, penso na odisséia de publicar, de lançar, de temer pelo silêncio, desprezo, ofensa, coisas mornas em torno de um outro livro. Então, nesse lugar estranho, entre a vaidade e a timidez, não sei ainda onde é que eu fico. O que farão comigo, certos amigos, se eu disser que não preciso de Rilke para viver? Gosto muito da idéia de Mayrant, quando intitulou seu blog assim: Não leia. Finíssima contradição que tomo emprestada.

Momento confessional -

Ontem à noite, na UNEB de Euclides da Cunha, falei para uma platéia atenta, sobre o que acontece comigo, agora, como escritora. As perguntas, para minha surpresa, não foram aquelas óbvias. Me trouxeram questões para mexer comigo. Para cutucar na minha biografia, na minha história de menina, nos meus guardados. Em alguns momentos, as perguntas paralisavam. E sei que os efeitos dessa noite ainda estão reverberando. Eu estava nervosa, eu estava tímida, eu estava deslocada. Percebi que não sei vender meus livros. É estranho que alguém me entregue cédulas de dinheiro, para pagar pelo livro. Parece uma relação danificada. Este "dinheiro" que me entregam, assim, diretamente em minhas mãos, da venda dos livros, sempre tenho vontade de guardar numa caixinha, para olhar, de vez em quando. O primeiro livro que vendi assim, e que me pagaram diretamente, numa nota de 20,00, guardei na carteira. Como se fosse um talismã. Mas a vida me obrigou a gastar, como dinheiro regular, num caso de emergência, para colocar combustível no carro. Acho que nunca vou saber vender meus livros. Acho que nunca serei uma escritora cheia de desenvoltura, de perfomances, que agrada ao público. Hoje uma leitora me disse que leu o livro todo e não entendeu muito. Mas, gostou quando, ao meu ouvir lendo alguns textos, e falando sobre eles, conseguiu entender. Pedi a ela que não tentasse entender. Que nem eu saberia explicar certas coisas que escrevi. Tive medo que ela estivesse sendo obrigada a entender. Os ouvintes perguntaram sobre as minhas estratégias de criação. Tenho um pouco de vergonha de dizer que escrevo quase que no automático, tenho vergonha de parecer arrogante, ao dizer que praticamente todos os textos do blog foram escritos na hora. E não sei explicar o motivo que me impede de revisar estes textos, ainda que muitos possam melhorar, se eu fizer isso. Sinto uma alegria por ter conseguido ser fiel a um acordo entre os leitores do blog: nunca revisar, escrever aqui mesmo, no formato do blog, no próprio formulário, sem mexer no texto. As alterações são mínimas. Ontem confessei como é difícil ler comentários ruins, como me deixam triste as críticas agressivas (ainda que também tenha dito que no blog são raras essas críticas). Também são raras as críticas bem feitas dos que não gostam. Sinceramente, prefiro a presença dos amigos. O livro, agora tornado público, está na arena. E dele, espero as críticas contrárias, a condenação, algum desprezo, o silêncio. Mas parece que o blog é como um pedaço da minha casa, um quarto, um cômodo, uma varanda. E os leitores são amigos. Que se danem os super críticos munidos de todas as ferramentas teóricas contemporâneas, cheios de argúcia e ira, ou até mesmo os críticos que admiro, que nem sabem que existo. Por aqui, prefiro colo, prefiro aqueles que chegam e ficam por perto, com carinho. Uma escritora iniciando precisa mais é de delicadezas.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Telhado

Diariamente, o prédio é maior do que eu. As horas passeiam pelos relógios e ainda assim, o prédio é mais alto do que eu. O toque de um sino ilusório interrompe a linha hospitaleira das horas, que em conjunto, no trabalho de hipnose, as mesmas de sempre, passeiam sobre os relógios. E se infiltram também, dentro da maquinaria dos relógios, sinuosas, frequentes, insistindo a cada gesto, regulares. Subo no ponto mais alto do prédio, grito ao chão e ao céu que são as medidas do passado. Levo comigo a guerra das horas que se perdem, agora e em mim, diariamente.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Area

Ela saiu do trabalho. Cansada, após uma noite de plantão. Complicações na cesariana. Queria esquecer. O mais difícil, ainda hoje, era o momento de dar a notícia à família. O bebê iria sobreviver. Mais do que em qualquer outro dia, um abraço cairia bem. O convite para o café da manhã era, ao mesmo tempo, motivo de alegria e de receio. Chegou mais cedo que ele. E aproveitou o tempo para melhorar a aparência. Se bem que o cansaço em seu rosto não dava para disfarçar. Demorou um pouco mais no banheiro. Estava nervosa. O batom, recente, estava artificial demais. Retirou o excesso com o guardanapo. Ainda faltava meia hora para o horário marcado. Estômago queimando. Precisava de um café com urgência. Fez o pedido. Tamborilava os dedos sobre a mesa quando o celular tocou. Reconheceu o número tão familiar. Entendeu claramente a mensagem e ainda assim não conseguia sair do lugar. Não queria estar diante daquela dor outra vez.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Dança

Para R.G.

Na primeira vez em que ouvi a sua voz, ao telefone, ele me disse: "Você é minha menina". Quando eu nasci, ele era um garoto inseguro. No meu primeiro aniversário, a família mudou-se toda para o Rio de Janeiro. Parece que eu, ainda engantinhando, recebi dele o primeiro beijo. Minhas mãos estão frias. O cabelo não ficou do jeito que eu queria. Esta roupa é totalmente inadequada e eu sempre soube que não deveria estar com sapatos novos, porque usar sapatos novos já é um grande desafio. Meus pés reclamam. Só ouço meu coração aceleradíssimo. Ele adora superlativos e está entrando agora, neste exato momento em que escrevo e não sei o que fazer.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Flores

No paraíso, reina o silêncio. Sede aplacada. Nenhum desejo de estradas. As bagagens vazias, descendo nas águas do rio. Nas águas, os restos: sapatos, cartas, protetor solar, chaves, os inúmeros díarios, alfinetes, um rádio, anéis, calendário da lua, receita médica, aspirinas, sofás reformados, pilhas gastas, flores, flores, flores. Uma procissão aleatória. A trajetória previsível da vida que rompe o silêncio. E ao final, para o silêncio, tudo retorna.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Brinde

Para Nilson Galvão, que guarda uma Caixa Preta.


A sala cheia. Corpos ruidosos, roupas ajustadas nestes corpos. Os copos passageiros. E ele, ao redor dela. Para fazer-me ainda menos visível nesta festa. Só eu e meu coração aos saltos. A infância refeita, ali, em poucos instantes. Nós todos na mesma rua sem saída, aos gritos e pulos felizes, antes das mães, reunidas, avisarem o horário do jantar. Hoje, o amor como este feixe de luzes desencontradas. Uma criança sozinha na sala repleta.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Contrato de trabalho

Quando acordei,
o amor resmungava.
Péssimo humor
e cabelos despenteados.
Desde cedo,
já me fazendo de vítima.


Eu, ao nascer do sol,
já apaixonada por um menino,
que cresceu
e agora,
usa barba e bigode.

Mas isso foi ontem,
quando acordei.
Porque depois, o amor,
de olhos esbugalhados,
fez uma má criação
e gritou bem pertinho do meu ouvido:
__Está apaixonada e vai sofrer!


Amor danado,
menino perverso,
mas menino bom,
que ao dormir,
parece um anjo.

O amor,
fazendo artes,
me tira o sono
e acorda feliz,
logo de manhã.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Coraçãozinho de espuma

Ela se apóia nas grades da ponte e olha para o rio. Chora, em silêncio. Sente que está sendo observada. Vira o corpo e ele está lá. Ainda. Parado. Sem nenhum gesto que possa indicar uma retirada. Ele a aguarda. Ela se aproxima, então. Descreve seu medo. O medo dos últimos relacionamentos. A confortável desilusão. A alegria, finalmente, de poder sustentar a solidão, fora do espaço do drama e da lamúria. Feliz, porque afinal, sabe preencher o canhoto dos cheques, entra sozinha num bar e pede um vinho tinto, viaja desacompanhada e tem cartões de crédito de cores e saldos incríveis. Com a voz embargada, solicita: Não tente me tirar isso. Os cabelos desalinhados, a maquiagem borrada e os pés doloridos por causa dos sapatos de salto. Ele sorri e diz que não vai desistir. Ela questiona:
---Como isto vai funcionar, Mr. Shine?
--- Não faço a menor idéia! Mas vai funcionar. Eu prometo.
---Vamos caminhar, então?
---Sim.


Os dois caminham juntos. Ela está muito mais alta do que o normal. E ele é baixinho. Ela retira os sapatos. E descalça, ficam quase da mesma altura. E ele diz:

--- Você é meu tipo de garota.


Pessoas caminham, crianças brincam, vento, árvores, música feliz. E final do filme.



Eu, saio do cinema mais leve. E me dirijo ao café de sempre. O barista sempre sorri para mim e desenha, sobre meu espresso com leite, um coração todo enfeitado.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Rafael Mantovani

Estou cansadinha, cansadinha... Sem tempo pra escrever, sem tempo pra quase nada... Então, lendo os amigos. E o Rafael Mantovani é demais!!! Fiquem com um dos poemas postados no blog dele, que diz o que eu gostaria de dizer, deste jeito:






ir embora, guardar as coisas nos bolsos.
mas onde guardar a visão
que eu pretendo levar junto?
em qual dos álbuns se guarda
a fotografia mental?
como, tentando pegar,
não se derruba a coisa?

o pé pequeno deitado na cama
os dedos curvos, brancos
o banheiro e o chinelo
a janela para o céu
o adesivo do Sesc
o remédio na cadeira.

no apartamento dele
sonhei que estava no meu,
eu esquecia a porta aberta
e alguém me deixava um recado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Meu Deus

Meu Deus é indivisível. Deus é um objeto muito pessoal. Tal como a minha escova de dentes, que não compartilho com ninguém. Depende da pessoa, é claro, mas cabe também citar o caso das toalhas e das seringas. Tenho um Deus para meu próprio uso. Nunca compartilho com outras pessoas. Questão de método. Ou hábito. Ou costume que vem de berço. Meu Deus, eu escolhi em porção individual. Me lembro que nesta época, também comprei uma cafeteira que prepara apenas uma xícara de café. Assim como este Deus meu, a cafeteira é para pessoas que moram sozinhas. Antes, vi um Deus sendo vendido na liquidação. Embalagem promocional: você comprava um Deus e ganhava uma esponja em forma de estrela do mar. Já vi deuses sendo vendidos por preço reduzido, mas neste caso, você era obrigado a levar Deus e ganhava o Diabo de brinde. Em compensação, a embalagem era para presentes. Comprei meu Deus para meu próprio uso. Este Deus que me pertence, guardo com zelo, em lugar secreto. Só eu conheco a combinação para abrir este cofre. Eu espero que você me entenda. Este Deus, que comprei com o suor do meu rosto, é de uso pessoal e intransferível. Como as senhas, os humores, roupa íntima e escovas. Depende da pessoa, é claro.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Frio em Maracás

Não existe coisa mais doce que saudade correspondida!!!!!

Folhagem e seus pressentimentos

Eu não vou repetir. Deixe o vento levar essas palavras ciganas. Ouça, agora, com o seu olhar atento. Ofereça seus braços ávidos. Mas depois, esqueça. As pedras vão querer ouvir e gravar. Os rios vão querer ouvir e levar. O mar vai querer ouvir e gritar. Mas somente o vento sabe o melhor lugar para guardar nosso segredo. O vento disperso, inconstante, ágil. Deixe que o vento seja o mensageiro deste amor que passou.

Notícia breve

Estive fora, por uns dias... E fora do ar, por uns dias mais.
Lá em Maracás, muitas emoções, muito trabalho bom, a paixão pela palavra nos reunindo na mesma mesa. Saudades desses dias bons...
Recebi algumas visitas novas aqui no Mundo: Otávio, Karina, Ivonete, Janaína. Recebi uns pedidos de retorno de Marcelo (viciado!!), levei pedacinhos de poesia de Nilson Galvão para Maracás. E estou sem tempo de escrever. Mas com muita saudade de escrever por aqui...
Beijos para todos

P.S, muito tempo depois: Hoje, na UFBA, encontro de escritores, de beira de oceanos dáfricas, de portugais, de bahias: Adriano Heysen (Bahia), Ondjaki (Luanda) , Filinto Elísio (Cabo Verde), Odete Semedo (Guiné Bissau). Troca de livros, de fábulas e delicadezas...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Kassim e Bakari

No meio da multidão agitada, há um homem que não tolera mais tanta espera. Há horas circulando. Emoções desencontradas. Uma espécie de superstição nova o assalta: decide tomar café no mesmo lugar em que se despediram, próximo ao portão de embarque. E em pé, com olhar distraído, num gesto suspenso entre pegar o açúcar ou a colher, ouve os sorrisos ruidosos das duas mulheres. Lembra com muita nitidez do momento em que Bakari pediu a ele que cuidasse direitinho de Yeme, a gata. O vôo está atrasado. É tudo estranho , acontecimento quase irreal. Este homem quer encontrar forças. Deve estar preparado na hora dos procedimentos legais. O que ele mais teme é o olhar de Bakari. Conseguiu até agora fugir do assédio da imprensa. O aeroporto tem o movimento típico desta época. Kassim não sabe mais o que fazer para passar o tempo. Precisa ir ao banheiro. O isolamento é precário, mas útil. Tem medo de perder o controle na hora em que ela chegar. Mais uma vez, ele ensaia a expressão facial. Calcula os gestos e as frases. Quer esquecer, mas sempre volta a imagem de sua filha, sozinha no mar. Nem pode colocar os pés na terra dos avós. A única sobrevivente entre mais de duzentos corpos. Ao receber o telefonema, a vida ficou suspensa. Antes de sair de casa, chorou muito. De saudade da mulher. Não sabe o que fazer com essa tristeza desmedida. Não sabe como contar à Bakari que a mãe morreu. No entanto, tem planejamento detalhado sobre o que fazer com esta nova felicidade. E agradece por existir uma gata chamada Yeme, avós que ainda aguardam em terras africanas, e porque, afinal, é tempo de férias em Paris.





Fonte: http://veja.abril.com.br/080709/milagre-meio-tragedia-p-104.shtml

sábado, 5 de setembro de 2009

Curiosa!


Eu, talvez, um dia, deixando a brincadeira de lado, e os amigos, esquecendo por alguns instantes o desejo de comer chocolates, atraída, de repente, por vozes da casa ao lado. Eu, talvez, na infância, espreitando o jardim alheio. Eu, talvez, criança inquieta, concentrada nas festa do outro lado da cerca, algazarra do futuro.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Pia e espelho

O espectador vê apenas uma parte da saleta e a porta aberta do banheiro, pia e espelho pequenos. Início da cena: um jovem organiza e limpa seu espaço de trabalho na saleta. Conhece bem todos os objetos que vai dispondo numa organização rápida e resoluta. Ajeita todas as coisas, com método e ritmo. Atrás do jovem, o que o espectador vê informa que o banheiro está impecável. Na mesa, papéis, alguns livros, porta-retratos, canetas, cartas, clips. Há lugar certo para cada objeto que é tocado. Em poucos minutos, o ambiente está organizado. O jovem se desloca para o banheiro. Não fecha a porta. O espectador agora vê apenas o espelho e a pia, limpos. A câmera desce e ajusta o close para o chão, muito limpo também. Aos poucos uma mancha vermelha vai tomando a superfície. Então, o chão do banheiro fica totalmente coberto de sangue.Corte.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Cedo

O domingo depois de amanhã chegou bem cedo. Era domingo agora e antes. Os pássaros interromperam o sono de alguém que se deitou na minha cama. E amanhã, antes do domingo que passou, medo de estar sozinha. Na véspera do dia demorado e quase monótono, antes que o céu esteja fechando outra estação. Em estado de sonho , faço planos de viagem para o mês mais frio. No ano passado encontrei sua carta sobre a cama, era hoje o domingo desde cedo. Virá o porteiro do prédio dizer que o domingo de ontem acabou. E depois, sem futuro, vou esperar a duração de um dia inteiro, até que outra vez, seja um novo dia de domingo, depois de amanhã. Dia novo, para abrir a porta e receber flores aos sábados.


Para Aeronauta...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Onda

Talvez. Se chovesse. Por enquanto, vale aquilo que eu disse ontem. Abro o pacote de biscoitos. Organizados em pares esféricos, com uma porção de recheio entre eles. Abro este par e observo o recheio. Operação cancelada. Entro no cinema e o filme não me faz rir. Nem chorar. Reconheço o sabor do café e vejo que é bom, mas é o mesmo sabor de sempre. Escrevi coisas demais e é cansativo pensar em organizar os papéis. Penso nas árvores derrubadas e talvez o silêncio seja um gesto sublime. Dei alguma função àquelas folhas anteriormente inúteis.: agora são folhas preenchidas. Leio um livro novo e este livro me lembra tudo que já disseram. Não há saída. Nem os biscoitos com seu recheio. Nem os filmes. Nem o choro nem o riso. Nada a dizer que justifique escrever outro livro. Uma árvore não para de dizer coisas novas. Deixo de escrever e serei uma das heroínas das árvores. Procuro uma metáfora gasta. Nenhum chantily vai salvar a massa deste bolo solado. Talvez. Se chovesse.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Amigos que escrevem!




Os Continhos para cão dormir na Caixa Preta...
Estarei lá...
E já sei que será uma festa!
Foi muito bom ter participado do Encontro de Blogueiros. Este grupo, chamado de "e-amigos" mostra quantas surpresas boas a vida na blogosfera traz. E quantas amizades vamos construindo. Uma rede generosa, criativa, feliz...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

mesa branca

Exercício de roteiro. Primeira versão.

Começa a cena. Foco na mesa. Madeira boa. Madeira não tratada ainda, mas com uma camada de verniz. Tem brilho. Verniz sobre as naturais imperfeições. Uma toalha é colocada sobre a mesa. Aparecem as duas mãos que se movimentam.foco no movimento da toalha se ajeitando sobre a mesa. As duas mãos alisam a toalha e finalizam o ato: por toalha sobre a mesa. A toalha é branca, rendada. Pode indicar pelo menos três coisas: jantar sofisticado (de ocasião especial), volta a rotina na sala de jantar, sessão espírita de mesa branca. O expectador só vai saber na medida em que os objetos vão sendo colocados sobre a mesa. É reunião de evangelho seguindo princípios do espiritismo, evangelho em casa. Cinco lugares. Copos de água. Jarra de água. Livros no centro. Alguma vela. Após colocação dos objetos, ruídos das pessoas chegando. Pedaços de cena das pessoas sentando e se colocando em seus lugares e posturas. Silencio. Foco nos ruídos externos, apenas. O homem tem o rosto marcado por choro excessivo. Aparência forçada de calma e resignação. Abre o livro-evangelho. Lê o salmo lido tipicamente em funerais. Para no meio da leitura, larga o livro. Segura a cabeça com as mãos. Começa a dizer lentamente “Não” olhando para algum ponto na mesa. Intensifica a negação com gestual (olhar perdido, movimento da cabeça, expressão vai ficando mais desesperada, num crescendo. O ápice é interno então ele não intensifica em quantidade de movimentos faciais ou choro forte. Quebra a expectativa (ou lógica) do crescendo. Pára. Como se a respiração estivesse suspensa. Segura o ar. Não pisca. Tensiona o corpo, como congelando. Fecha os olhos. Chora (ou é chorado pelo corpo). O choro sai sem controle mas sem nenhuma resistência e nenhuma pressa. O corpo vai amolecendo, abaixando tudo: sobrancelhas, pálpebras. Expressão de alguém que está sendo dominado por um sonífero. Corta.