O MUNDO TEM INSCRIÇOES SEMPRE ABERTAS
Publicado em 2009, a partir de textos postados aqui no blog, pela Editora Escrituras, de São Paulo.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Temporal e queda de árvores
nem escolhe outro modelo de sapatos
saí pela rua com sapato apertado
roupa amassada
nem se importa
Tristeza é relaxada
deixa a cama por fazer
não tira o lixo
e deixa restos de comida estragando na geladeira
A tristeza rói unhas e
nem liga se indicam que há restos de comida entre os dentes
arrota bem alto, coça o saco na frente das mocinhas
e se for o caso
manda todo mundo para o inferno
A tristeza é uma funcionária desiludida
cansou de esperar aumento de salários
então,
quando sai
veste qualquer roupa, calça qualquer sapatos
e nem liga se está chovendo
Ela sabe que ao chegar perto
eles é que precisam estar protegidos
Com todo gás
Todos somos contadores
sábado, 31 de outubro de 2009
Deserto
Não é preciso nenhuma poesia nova
para habitar as porções desertas do mundo
No deserto
os grãos espalhados fazem todo o sentido.
Não é preciso nenhuma poesia nova
ou versos
lutando para despertar
o sono antigo e demorado
das pedras no deserto.
Não é preciso nenhuma poesia nova
ou imagens extravagantes
querendo provar que o deserto
precisa ser descrito e enaltecido
O deserto está para sempre ali,
na luta diária contra o vento,
na luta diária contra a noite fria,
na luta diária
do grão e da pedra,
contra os pés insistentes
e as palavras barulhentas dos ciganos
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Da série: Escrevem muito melhor do que eu
AS MUSAS CEGAS
V
Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
- E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.
Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
- Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. - Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
e doado às coisas mínimas.
Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
- Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.
Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.
Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
- não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.
E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.
Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.
Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
Inutilidades
Momento confessional -
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Telhado
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Area
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Dança
Na primeira vez em que ouvi a sua voz, ao telefone, ele me disse: "Você é minha menina". Quando eu nasci, ele era um garoto inseguro. No meu primeiro aniversário, a família mudou-se toda para o Rio de Janeiro. Parece que eu, ainda engantinhando, recebi dele o primeiro beijo. Minhas mãos estão frias. O cabelo não ficou do jeito que eu queria. Esta roupa é totalmente inadequada e eu sempre soube que não deveria estar com sapatos novos, porque usar sapatos novos já é um grande desafio. Meus pés reclamam. Só ouço meu coração aceleradíssimo. Ele adora superlativos e está entrando agora, neste exato momento em que escrevo e não sei o que fazer.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Flores
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Brinde
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Contrato de trabalho
o amor resmungava.
Péssimo humor
e cabelos despenteados.
Desde cedo,
já me fazendo de vítima.
Eu, ao nascer do sol,
já apaixonada por um menino,
que cresceu
e agora,
usa barba e bigode.
Mas isso foi ontem,
quando acordei.
Porque depois, o amor,
de olhos esbugalhados,
fez uma má criação
e gritou bem pertinho do meu ouvido:
__Está apaixonada e vai sofrer!
Amor danado,
menino perverso,
mas menino bom,
que ao dormir,
parece um anjo.
O amor,
fazendo artes,
me tira o sono
e acorda feliz,
logo de manhã.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Coraçãozinho de espuma
---Como isto vai funcionar, Mr. Shine?
--- Não faço a menor idéia! Mas vai funcionar. Eu prometo.
---Vamos caminhar, então?
---Sim.
Os dois caminham juntos. Ela está muito mais alta do que o normal. E ele é baixinho. Ela retira os sapatos. E descalça, ficam quase da mesma altura. E ele diz:
--- Você é meu tipo de garota.
Pessoas caminham, crianças brincam, vento, árvores, música feliz. E final do filme.
Eu, saio do cinema mais leve. E me dirijo ao café de sempre. O barista sempre sorri para mim e desenha, sobre meu espresso com leite, um coração todo enfeitado.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Rafael Mantovani
ir embora, guardar as coisas nos bolsos.
mas onde guardar a visão
que eu pretendo levar junto?
em qual dos álbuns se guarda
a fotografia mental?
como, tentando pegar,
não se derruba a coisa?
o pé pequeno deitado na cama
os dedos curvos, brancos
o banheiro e o chinelo
a janela para o céu
o adesivo do Sesc
o remédio na cadeira.
no apartamento dele
sonhei que estava no meu,
eu esquecia a porta aberta
e alguém me deixava um recado. Postado por Rafael Mantovani
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Meu Deus
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Frio em Maracás
Folhagem e seus pressentimentos
Notícia breve
Lá em Maracás, muitas emoções, muito trabalho bom, a paixão pela palavra nos reunindo na mesma mesa. Saudades desses dias bons...
Recebi algumas visitas novas aqui no Mundo: Otávio, Karina, Ivonete, Janaína. Recebi uns pedidos de retorno de Marcelo (viciado!!), levei pedacinhos de poesia de Nilson Galvão para Maracás. E estou sem tempo de escrever. Mas com muita saudade de escrever por aqui...
Beijos para todos
P.S, muito tempo depois: Hoje, na UFBA, encontro de escritores, de beira de oceanos dáfricas, de portugais, de bahias: Adriano Heysen (Bahia), Ondjaki (Luanda) , Filinto Elísio (Cabo Verde), Odete Semedo (Guiné Bissau). Troca de livros, de fábulas e delicadezas...
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Kassim e Bakari
No meio da multidão agitada, há um homem que não tolera mais tanta espera. Há horas circulando. Emoções desencontradas. Uma espécie de superstição nova o assalta: decide tomar café no mesmo lugar em que se despediram, próximo ao portão de embarque. E em pé, com olhar distraído, num gesto suspenso entre pegar o açúcar ou a colher, ouve os sorrisos ruidosos das duas mulheres. Lembra com muita nitidez do momento
Fonte: http://veja.abril.com.br/080709/milagre-meio-tragedia-p-104.shtml
sábado, 5 de setembro de 2009
Curiosa!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Pia e espelho
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Cedo
Para Aeronauta...
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Onda
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Amigos que escrevem!

Os Continhos para cão dormir na Caixa Preta...
Estarei lá...
E já sei que será uma festa!
Foi muito bom ter participado do Encontro de Blogueiros. Este grupo, chamado de "e-amigos" mostra quantas surpresas boas a vida na blogosfera traz. E quantas amizades vamos construindo. Uma rede generosa, criativa, feliz...
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
mesa branca
Começa a cena. Foco na mesa. Madeira boa. Madeira não tratada ainda, mas com uma camada de verniz. Tem brilho. Verniz sobre as naturais imperfeições. Uma toalha é colocada sobre a mesa. Aparecem as duas mãos que se movimentam.foco no movimento da toalha se ajeitando sobre a mesa. As duas mãos alisam a toalha e finalizam o ato: por toalha sobre a mesa. A toalha é branca, rendada. Pode indicar pelo menos três coisas: jantar sofisticado (de ocasião especial), volta a rotina na sala de jantar, sessão espírita de mesa branca. O expectador só vai saber na medida em que os objetos vão sendo colocados sobre a mesa. É reunião de evangelho seguindo princípios do espiritismo, evangelho em casa. Cinco lugares. Copos de água. Jarra de água. Livros no centro. Alguma vela. Após colocação dos objetos, ruídos das pessoas chegando. Pedaços de cena das pessoas sentando e se colocando em seus lugares e posturas. Silencio. Foco nos ruídos externos, apenas. O homem tem o rosto marcado por choro excessivo. Aparência forçada de calma e resignação. Abre o livro-evangelho. Lê o salmo lido tipicamente em funerais. Para no meio da leitura, larga o livro. Segura a cabeça com as mãos. Começa a dizer lentamente “Não” olhando para algum ponto na mesa. Intensifica a negação com gestual (olhar perdido, movimento da cabeça, expressão vai ficando mais desesperada, num crescendo. O ápice é interno então ele não intensifica em quantidade de movimentos faciais ou choro forte. Quebra a expectativa (ou lógica) do crescendo. Pára. Como se a respiração estivesse suspensa. Segura o ar. Não pisca. Tensiona o corpo, como congelando. Fecha os olhos. Chora (ou é chorado pelo corpo). O choro sai sem controle mas sem nenhuma resistência e nenhuma pressa. O corpo vai amolecendo, abaixando tudo: sobrancelhas, pálpebras. Expressão de alguém que está sendo dominado por um sonífero. Corta.
