segunda-feira, 31 de maio de 2010

Antes de partir

A escrita não é uma peça decorativa na casa chique. Não é este brinco que descarto, por não combinar com os sapatos. Ou aquela viagem que decido fazer, nas próximas férias. Nem é este cartão de visitas com que me apresento nas festas. A escrita é esta fome, lá dentro, furando em mim um espaço. E esta perfuração não tem dia nem hora certa. A todo instante, um grito, a todo instante, um enjôo, a todo instante, um susto ou o maravilhamento. A vida toda inflamada, a vida inteira fica gigante. E tudo dói, e tudo me faz chorar e ver horrores. Os meus sonhos agora são os sonhos alheios. Todas as vidas estão vivendo no meu peito. E a minha própria vida eu já não sei qual é, nem quando.

A escrita não é um posto, não é um título, não é este emprego fixo, esta casa arrumada, o carro novo, os divertimentos, a agenda, a compra planejada de um outro móvel. A escrita me desarruma, a escrita cobra caro e pouco me entrega. Porque a escrita me nega tudo. E me atordoa. E me deixa ser assim, quase normal, quase louca. E você me olha, desavisado, pensando que sou cabível, removível, discutível. Eu sou por escrito uma pergunta sem resposta. Eu sou indecisão e firmeza. Eu sou mistério e pobreza. Eu sou o meu gesto ridículo e choro com pena das dores que invento. Eu queria ser outra coisa. Eu queria ser igual a você e aceitar que não há nada melhor a fazer a não ser planejar as férias, conter os gastos, comprar outro carro novo. Eu queria ser como você, com medo de dentista e da velhice. Eu queria ser você, com seus hobbies e os chiliques. Eu queria ser outra pessoa. Eu queria ser analfabeta. E feliz. Mas sou escritora. E isso não me ajuda muito.

9 comentários:

Noslen ed azuos disse...

me ajuda sua sensibilidade, me ajuda a ser triste tbm, este mundo ñ é dos escritores e sim dos atores e hoje eu me busco no triste e amanhã serei de outro escritor ou de vc mesmo, e quem sabe alegre.

Bjs
ns

Pierre C. Cortes disse...

E graças a Deus vc. é escritora.
Que lindo!!!!!!!!!!!!!!!!

Luna Freire disse...

Não. Esse grito, essa desarrumação, essa marginalidade, essa miséria, essa angústia... isso não é triste! Isso é a vida, que não se mostra nem sai nos jornais. E trate de ficar feliz por poder carregar as asas que descortinam esse vôo pra dentro do abismo.

Ludmila Rohr disse...

ainda bem que voce é quem voce é...fico feliz que essa ESCRITORA faça parte da minha vida!!!

Maria Muadiê disse...

o amor, a escrita e a leitura são as coisas que me salvam

Adri disse...

Emocionante...

Simplesmente maravilhoso texto

Vera Passos disse...

Eliana,
Adiei demasiado o momento de visitar o seu blog. Certa estava: vc revela em profusão o secreto de mim e eu quero dizer ainda outro tanto. Com você, quero aprender a descortinar esses mistérios que nos habitam e insistem em sair em turbilhões de palavras.
Beijos analfabetos,

Erika disse...

Bonito seu texto! Fez-me lembrar o poema Com licença poética de Adélia Prado.
Abraço

Renata (impermeável a) disse...

Sinto-me menos mediocre por causa da escrita.................