sexta-feira, 9 de abril de 2010

Céu estrelado


Entrei devagar

na sala branca dos meus sonhos.


A sala era minha

e eu me sentia intrusa.


Nenhum móvel combinava:

objetos não sintáticos

se acomodavam

junto às paredes.


Enfileirados, estavam

a geladeira da casa da minha vó

o colchão velho na vertical

bicicleta em ferrugem exposta.


Fotografias coladas na parede e teto,

olho para o teto e vejo que só há fotos minhas.


Deito no chão que me espinha

e olho as fotos como quem vê estrelas.


Na sala branca dos meus sonhos

o teto é coberto de fotografias e das minhas poses.


Como estrelas, cada fotografia compõe um pedaço

do teto

que é céu de morte

Ver estrela é ver algo que já deixou de existir.


Truque macabro e óptico

as fotos afirmam que morri

e a sala branca dos meus sonhos

é este caixão bem arrumado que fecharam,

enquanto eu, sem saber, ainda respirava.

Um comentário:

Chorik disse...

Sinto-te em outra fase, embora mantendo o mesmo perfeito domínio da imagem na mente do teu leitor. Sigo te admirando.
Bj