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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Ponto final

Trancada no quarto, sem destino, perdida numa dor sem origens. A frase voltava, sem obediência, sem modos. Nem a festa do Natal, com a família reunida, nem o adiantamento de um dinheiro que daria o direito à esperada viagem. Olhos postos na mala semi-pronta. Olha para as roupas íntimas, escolhidas para os sonhos. Antes, ao olhar para elas, tinha malícia, calor, era vida. Agora, uma das outras marcas de sua figura patética. No espelho, vê batom, lápis, base: tudo escorre e deforma. O rosto de um palhaço pobre, sem público, aparando com uma panela velha a água que escorre dos buracos da lona. A cena cômica quando deu a ele as passagens. O olhar, novo, arma branca. Um calor repentino, sangue escorrendo e dor nenhuma. As passagens voltam para minhas mãos. Olho para frente e não vejo mais nada. Sei que ele partiu. O ronco do carro. Minha mãe inútil. Meu pai e seu vexame. Subo as escadas, tropeço no salto, odeio tudo que sou. Agora estou entre as duas distorções do espelho. Bem longe eu ouço sons de vida, lá fora. Seria a voz de minha mãe? Preciso dormir.