Se eu fosse uma rosa, meus dias de segredo seriam exibidos em forma de botão, uma caixa de idéias, sobrepostas pacificamente. E estas pétalas, assim, prensadas, tímidas ou débeis, em paralisia e silêncio, seriam os meus medos, meus olhos fechados. A substância de orvalho, ácido veículo de viagens, tocando levemente a primeira pétala, a mais exposta, a pétala de vanguarda, daria inicio a uma dança, preguiça encantada, uma cobra sinuosa se despedindo de uma cesta feia e monótona. Assim, na abertura de rosa, eu seria uma cantora, quase louca, quase sã. Extendida em vários braços, cada pétala, pele liberta e autônoma, em busca de um norte desviado. Mas assim, reunidas, pétalas dançarinas e espalhafatosas, gritando para uma direção distinta, variada partitura, seríamos um sorriso, dentes abertos: felicidade irregular e ameaçadora.
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terça-feira, 10 de agosto de 2010
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Roda-viva
Para Chorik, um pouco de experimentação com as imagens
O girassol, objeto trôpego, observa. A coisa que é o sol, na embriaguez de tantos giros, arregala olhos e se espanta. Quer privacidade e sugere que a flor imensa, descabelada, descanse um pouco. O objeto tropeça no tédio, e olha, invertebrado, cada um dos movimentos circulares e mínimos do círculo quente. Acordo tácito, monotonias. Objeto fixo na insensatez gigantesca da bola quente. Uma bola que gira para sempre. E um objeto de olhar eternamente escravizado.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Piano
Acordo relembrando cenas de um sonho insólito. Quero desenhá-lo e não consigo. Não sou capaz de descrever o que meu corpo registrou. Olho para o piano e sei que sonhei música. Sentada diante de todas as teclas, desaprendo. Retorno ao tempo de ignorância absoluta, quando o desfile das palavras eram seqüências de gritos sem tradução. Não sabia ler e ainda assim, pressentia o secreto e amplificado livro que a vida exibia, através de todos os objetos feitos com palavras. O piano me nega seu discurso. Minhas mãos cegas tocam as teclas- signos, buscando falar através de suas vozes. E deste contato de minhas mãos ingênuas com os poderes instalados na franja do instrumento, emerge a distância entre o que sou e o que o piano é. Não sou o Deus deste mundo e então todas as músicas, que inauguram infinitas realidades, me abandonam. As teclas dizem, diante da minha inabilidade, que devo voltar ao lugar de onde o desejo veio. Sonhar a música não é possuí-la.
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