Mostrando postagens com marcador eu-lírica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador eu-lírica. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de outubro de 2008

Preparando a viagem

Miríades. Há fragmentos por todo o solo. Vidrinhos mínimos espelhando as luzes variadas do sol, em formato de ágil clépsidra. Diversos ângulos das pedras, essas águas mal criadas. Teu rosto vário, irreconhecível. Um cheiro antigo, retrato sutil da vida decorada. Agora, uma estrada nova nos convida. Virá o tempo das flores secas, virá o tempo das máscaras, incerta delicadeza. Palavras cifradas deste céu noturno.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Dança

No teu ritmo, não bailo. Estou tatuada como antigamente. E vivo o amor sem tréguas. Se o tempo do amor contigo é breve, amor fraco, amor alcançado pela fadiga, junto meus pertences, me despeço sem ter sustos. Vou ao encontro dos ciganos, dos menestréis e trovadores. Reúno-me nas esquinas, nos bares que nunca fecham. Os músicos dão o tom, nossa história me dá a expressão e como um colar feito de dores, canto o amor desprevenido, canto o amor interrompido. Canto a perda do amor, até que a lua esteja toda alta e em minha volta estejam reunidos os companheiros do tango, parceiros no mesmo fado.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Natureza

Era noite e dei as costas para o eclipse. Luas gerais sempre me acompanham. Era noite, a chuva discursava a sua redundância. Cada dia a mais, prostrada diante de um altar faminto, perco a chance de ser boa. Tudo que desejo é apetite e desvario. Tudo que planejo são horas de que me vejam. Sou eu, afinal, o centro do medo. O medo mora comigo e quando fujo, nos encontramos na outra estrada, ofegantes. O medo e eu. Será ele, então, a única companhia. O amante fiel e freqüente. O medo me guarda. O medo me ama. Medo companheiro, zeloso protetor, previu o esboço e o desalinho. O medo nos teus olhos é espelho. Devolução e sabedoria. Nosso amor, nunca mais.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Água grave

A equação vidraça e chuva. Da calçada, bilhete de embarque diluído no bolso úmido. Vista da sala e disfarçada pela cortina, é apenas uma mulher com olhos boiando. Chuva sem tempo. chuva ritmada. Chuva agora, chuva logo mais. De vez em quando, um acontecimento e os olhos param de boiar e piscam. Esta mulher ainda está viva.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Dedicatórias sem ruídos

Dou início hoje a um projeto no Mundo. Tenho pensado que os afetos que temos, quando são constituídos por desejos de reciprocidade, são menos puros. Não estou defendendo que sejam melhores. Talvez seja humanamente impossível sustentar um afeto sem ter algo de volta, ainda que esse algo seja parte de um processo masoquista. E desse modo, ter afeto e receber não afeto, seria uma negociação justa. Mas nestes dias, estou maquinando, insistindo em escarafunchar a mim mesma. Daí, o exercício de escrever para pessoas das quais espero afeto. Dar a elas, por escrito, encenada enquanto narradora, eu-lírica, meu afeto in natura, livre de dois condicionamentos limitadores: medo de não sentirem afeto por mim ou medo de que meu modo de sentir afeto por elas as afaste. Ou outro medo: de que o afeto seja apenas afeto por mim mesma, meu desejo egocêntrico de ser afetuosa.
O conceito não está claro. Então, vamos ao projeto.