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terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Satisfação
Estou em dúvida se uma escritora de blog, que vive satisfeita de si, orgulho em alta, vaidade estampada em rosas imensas e vermelhas. Esta mulher que escreve no blog, como se tivesse sexo perfeito todo dia, com homens diferentes (os que ela escolhe, é claro, e neste caso, começa a seleção pelo cheiro). Esta mulher que escreve no blog e se deleita em casa com os comentários gentis, e ri, vitoriosa, porque comprou uma aura. Esta mulher que abre o blog caçando leitores, e que lê os blogs alheios caçando leitores gentis? A mesma que traz um suco gelado para o homem com quem pretende rolar nos lençóis impecáveis (entende agora porque esta obsessão pelo cheiro?). Homem tem que ter cheiro bom. Não precisa estar perfumado. Mas seu cheiro tem que estar distinto. Tem que ser o cheiro dele, bom, com doses altas de higiene. O corpo do homem limpo, com seu cheiro fazendo ruídos. É o que me deixa entorpecida, beijar a nuca e codificar aquele homem. Ali, na nuca, onde o cheiro está bem reservado, bem exposto. A nuca do corpo limpo do homem que eu desejo. E os cheiros.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Objetos
Escrevo e aquilo que escrevo, me surpreende, como se houvesse um outro pensando através de mim. E se me reconheço enquanto escritora, ocupo um lugar novo, estranho. E isso é incômodo. Alguém leu, recebeu como se fosse um presente, ou uma seta bem dirigida. Serei eu, objeto desta importância? Escrever pode ser apenas meu jeito de ser atriz. De mergulhar e voltar com um peixe na boca, ou com estrelas, ou uma bota de afogado. A cada mergulho, o que trago de volta, é meu ou foi algo que recolhi, na minha atividade diária, não calculada, de catadora gulosa?
Passo horas nos não lugares, estes em que ninguém têm identidade definida: um shopping, um aeroporto. E pesco. Meu anzol não tem desejos nem metas. Trabalha à minha revelia. Sorvo um gole do café, quase frio, e recebo na cara um casal brigando, mas que anda de mãos dadas. Isto me foi dado ou é uma construção, a qual darei relevância, contorno e decoração? Escrevo. Basta escrever para deixar de ser coisa.
Passo horas nos não lugares, estes em que ninguém têm identidade definida: um shopping, um aeroporto. E pesco. Meu anzol não tem desejos nem metas. Trabalha à minha revelia. Sorvo um gole do café, quase frio, e recebo na cara um casal brigando, mas que anda de mãos dadas. Isto me foi dado ou é uma construção, a qual darei relevância, contorno e decoração? Escrevo. Basta escrever para deixar de ser coisa.
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