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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Protetor solar

Me espanta que só haja esta certeza: acima de nós, o céu, abaixo, o solo. E neste intervalo, ensaios de alegria, presença com data marcada de desencontros. Saio à noite, sem proteção alguma. Não tenho medo da arma, escondida numa moita. Não tenho medo da moto, que faz uma curva escandalosa, não tenho medo dos fárois do automóvel imenso. Viver não tem, de fato, nenhum sentido. E relembro, algumas crianças que conheço, que estão a salvo, a esta hora. E então, sonho que existe paraíso. O céu se instala, o solo não descansa. Amanhã, os automóveis, gritos e pressa. Mas agora, dentro da noite veloz, a vida é um excesso de fragilidades.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Faz de mim uma folha - 1

Pensei em você a noite toda. E entendi um pouco a raiva disfarçada, a leve irritação, o veneno destilado e impreciso. A ausência do teu corpo. A distância imensa entre o desejo e o seu beijo. A fome instalada desde a primeira vez, que eu quis ser sua e tive medo. Medo de ser inábil, medo de ter medo, medo de ser criança. Tudo ao mesmo tempo, misturado com o desejo que insiste. Sempre que te vejo por aqui, começo a ouvir os pedidos do meu corpo, para que aconteça logo o instante em que eu me encontre próxima do teu cheiro. Para que seja hoje o dia em que eu sinta você, ao meu lado, ao redor, dentro de mim e da minha fome.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Sinais

Gabe, na tua estrada, a abertura da primeira curva traz logo a seguir a primavera. Festival de cânticos florais, alfabetização de reverências. No meu país, é hora de dormir. A sedução febril, do desejo não derramado. Onde encontrar braços que sejam este abrigo, este conforto. Lenços, melodia breve, vento e luzes espalhadas. Reta contínua em amarelos e lilazes. Levo em mim a tatuagem das estrelas. Agora, nesta hora delicada, faróis invadem a mata e assustam os bichinhos calmos. Vamos brincar, Gabe, no dia da festa em que você nasceu e eu estava vestida de noiva, dizendo não ao nosso amor sem futuro.