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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Beira

ara Nuno, do Troblogdita, em resposta a uma de suas postagens cheias de lirismo


Este espaço é uma casa. Arrumada em exibição permanente de jardins, águas e decorações. Por vezes, cobrindo com lençóis brancos os móveis, outros tempos. Localizada na estrada, em meio ao nada, feito um posto de gasolina que vende água em copinhos mas não tem troco para uma nota de cem reais. Em volta da estrada, deserto. Imensidão feia de poeira e vento. Vista de longe, parece uma casa-caixa. Nenhum esforço em sua fachada para formular um convite. Raros vizinhos para alardear sua beleza ou falta dela. Ao fechar os olhos, tenho em mim a memória exata da casa. É uma maquinaria feita para agradar. Espera apenas por ele. E isso explica o fato de haver, em todos os cantos, alusões, nobilitações sugeridas. É a casa de um homem só, a quem será dado tratamento de senhor e hóspede. Engenho dos afetos, exposição viva de um desejo. Recebê-lo, lavar seus pés cansados, acolhê-lo sobre lençóis e aromas, protegê-lo se houver sol demais ou noite demais. Louvores, cânticos, danças, prostrações ao solo. A casa estática. A serva espera. A amante enlouquece.

domingo, 22 de agosto de 2010

Tango

Se eu finjo que não te quero. Se você espera que eu te escreva. Se nós não anotamos o endereço certo. Se eu escolho outra esquina. Se é melhor dizer meias palavras. Se a outra mulher oferece mais pernas. Se o teu perfume agora me causa naúseas. Se a vizinha sempre soube. Se eu vi o filme vinte vezes. Se minha mãe me avisou. Se naquele dia a porta ficou aberta. Se o médico pediu os exames. Se o seu time fosse campeão. Se o bolo fosse mesmo de chocolate. Se o cheque não tinha fundos. Se a chuva passou, rápida. Se o seu casaco era da cor preta. Se as flores do vaso estivessem murchas. Se o prato florido não estava trincado. Se o café foi feito na hora. Se meus olhos ainda ardessem. Se teu coração estivesse batendo. Se esta música parasse. Se o dia, enfim, amanhecesse.

Ensaio

A existência de Deus é minha pergunta e não um fato. Deus pode ser um país que ainda não conheço, mas desejo encontrar. Talvez Deus seja isso que eu sinto quando sou levada para outro lugar, ainda que presa a meus pés e meu endereço. No supermercado, uma cena. No trânsito, um susto. No hospital, uma criança sobrevive, abre os olhos, sorri e diz: Mãe, quero água. Deus está aí, neste lugar variado de milagres e compaixão. Deus está na alegria infinitamente pequena que sinto quando meu coração aperta. Ou logo depois de assistir ao filme comovente. Um homem que toca tambor numa estação de metrô para declarar o amor por uma mulher que declarou amor pela vida. Deus está aqui, agora, porque entendi que o amor que eu sinto por você nasceu comigo e irá me fazer companhia, na hora em que a lua cheia e imensa me der vontade de chorar, e até mesmo na hora da minha morte, tranquila e silenciosa.

Confissão

Me deu vontade de chorar e eu aceitei. Mas não aceito chorar mais do que o recomendado pelos médicos. Então, vou chorar de uma vez por todas as pequenas mágoas acumuladas. Incluindo irritações diárias e desaforos que trouxe para casa. Choro pelo moço bonito que marcou encontro comigo e nunca mais apareceu. Derrubo lágrimas pela falta de tempo de cuidar de meus pais. Outras pelos erros que cometi sendo mãe. Ainda pelas pequenas ofensas aos amigos. E por não ter sido forte suficiente para gritar com os inimigos, pelo menos gritar. Choro porque ele declara amor escandaloso e diário para a mulher ao lado. Choro porque um homem deseja meu corpo e não sabe nada de mim. Choro pelos equívocos que cometi ao aplicar dinheiro na bolsa de valores. E choro porque comprei objetos que não combinam comigo. Choro porque algumas amigas não cuidam da nossa amizade. Choro porque os homens que me amam não agem de acordo com o que dizem. E os que me amam querem que eu seja outra pessoa. Choro porque estou cansada e não há ninguém por perto para oferecer um chá de jasmim. Na verdade, nem para oferecer um simples chá de camomila, da marca mais comum que existe. Nem leite quente com biscoitos. Choro porque meus amigos adoram a poesia da poetisa alheia e não querem saber das minhas. Choro porque não sei amar outra mulher. Choro porque estou cansada de tentar amar os homens. Choro porque minha cachorra depende de mim para viver. Choro porque eu mesma dependo de mim para viver. Choro porque tenho que dar um ponto final a este texto, já que estou sozinha em casa e não há ninguém para me fazer parar de chorar. Nem de escrever.

domingo, 4 de julho de 2010

Estudo sobre morangos

Enciclopédia de vermelhos. Nenhum morango é órfão. Filiado a uma vegetação rasteira, família numerosa que lhe tolhe a significância, todo morango é um ser geminado. Genealogia de idênticos. Exposta a pele, pele cheia de humanidade, desenhada em poros visíveis, eriçados, em pontilhismo impecável. Na sua arquitetura, o que vem primeiro, tempo presente de sua carne mais recente, é a juventude da paixão. Na base, que o sustenta por um triz, uma espécie de saia a lhe cobrir a data de nascimento, aí onde a carne é branca e tímida, onde o sabor não existe ainda. No morango, uma viagem certa em direção a doçura que os sentidos lêem devagar. Há morangos crentes na lição generosa, que se entregam para uma festa. Outros, menos humorados, entregam uma sensação ríspida, que faz a mandíbula reagir, em leve movimento de rejeição. Mas a promessa dessa docuça leve atrai, para deixar que lá no ápice, uma língua curiosa explore a ponta delicada onde o sabor está concentrado. Neste fruto disposto para dentes ávidos, a paixão grita, delicada e satisfeita. É preciso ter uma mordida mínima para engolir este fruto, pendente como um brinco, menor do que a boca que o devora. Fruto breve, excelência quase imperceptível, quando alcança a plenitude de seu vermelho e seu açúcar. Vida precária, nesta conversa rápida entre o pleno frescor e o apodrecimento.