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quarta-feira, 18 de junho de 2008

A obsessão pela árvore

Lucia se mantém abraçada à árvore. Sua penitência vegetal, desejo de inteirezas. Lucia quer extrair da árvore a seiva. Tateia os nódulos, se apega à temperatura, entende as texturas. Lucia quer ser árvore. E decide ouvir. Apenas isso. Ser apenas um ser que recebe, com atenção, as linguagens cifradas do entorno da árvore. Ao redor da árvore, circunferências imaginárias. Seres inexistentes, fogos crepitando, aromas em trânsito. Riachos acompanhados de seixos, que os peixes utilizam como trampolins. Réstias de sol e bichos modulados. Lucia quer ser uma árvore. Pensa na árvore esguia, exemplo de altivez e equilíbrio. Se Lucia é árvore, Lídia pode passear no bosque. Lídia pode confiar que a vida vai doer menos. Lídia pode realizar o desejo e ter uma casa de brinquedo. Lídia sempre sonhou com uma vida de brinquedo. Vida plástica, vida meteórica. Lídia vê a árvore, pressente a mulher que a habita e se deita protegida pela sombra que são os olhos protetores de Lucia.

sábado, 14 de junho de 2008

Todas as estações

Me dê a mão e vamos em busca do verão. A festa das cores que se espalha pelos países. Em cada fuso, rotação diversa deste calendário, veremos a pele dourar-se diariamente. E assim, o amor será a busca deste graal. A taça repleta de dias luminosos e noites frescas. E o sol será o cúmplice do êxtase, da duração indefinida desta noite e das outras. Vamos provar a divergência das frutas. Buscar o frescor, ir até onde reside a contradição. Viver o suor que escorregue, deixar a respiração sem controle, até encontrar o refrigério, sombra, árvore, água. E entraremos na água, dando aos nossos corpos a lição do prazer do desencontro. O prazer das temperaturas que se chocam e intensificam a vida, que é apenas a estação perene. A vida que se diverte, repetindo as mesmas sensações em todas as eras. A vida que não varia, que apenas faz girar uma estação depois da outra. E coloca a nosso dispor a errância e o gozo.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Moldura

Ouvi os gritos estridentes: Não deixem levar a cristaleira! Não deixem levar a cristaleira!. E depois, os ruídos adaptados, o ajuste forçado da rotina. Trouxeram leite e biscoitos de chocolate. Nesta tarde, pude assistir televisão. E nenhum programa me distraía. Tudo estava ao contrário. Dia virado ao avesso. A vida emperrada, dobradiças interrompidas pela ferrugem. Os primeiros sinais da noite e o desejo de sair, sem destino. A casa assombrava. As luzes da rua acesas. Pessoas voltando para casa. Cheiro do pão quente. Meninos voltando da escola. E dentro de mim, tudo era frio e eternidade.

Moldura

Ouvi os gritos estridentes: Não deixem levar a cristaleira! Não deixem levar a cristaleira!. E depois, os ruídos adaptados, o ajuste forçado da rotina. Trouxeram leite e biscoitos de chocolate. Nesta tarde, pude assistir televisão. E nenhum programa me distraía. Tudo estava ao contrário. Dia virado ao avesso. A vida emperrada, dobradiças interrompidas pela ferrugem. Os primeiros sinais da noite e o desejo de sair, sem destino. A casa assombrava. As luzes da rua acesas. Pessoas voltando para casa. Cheiro do pão quente. Meninos voltando da escola. E dentro de mim, tudo era frio e eternidade.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Dramaturgia

ELA= lá no cerne, ela, vendo-se através da sutileza de um espelho ao acaso.
Ela, algo ressentida porque ELE não diz claramente mas por inferências, que ELA, super afiada na metodologia de inferir, ELA finge não precisar dele, programa vinganças pessoais de desprezo e afetada distância. Busca por um verbo e o encontra e ele, o verbo, a encontra nua em pelo, na sua maldade reativa E o verbo é ESPICAÇAR... E como pode um verbo dizer tanto, feito denúncia íntima, colocando-a, no meio de uma multidão ávida, ELA, exposta.
ELA, que nem ao menos para o terapeuta consegue assumir que sempre temeu a descoberta de seus “defeitos de fábrica”, ELA, então, faz caras e bocas e ares cosmopolitas de mulher desprendida, que não precisa dele, que finge tanto, finge até acreditar que ELE possa falar, sem lhe causar danos, ELE pode falar à exaustão, de LÙCIA, a outra, a que veio com ele escondida na bagagem, a outra que ele finge não desejar e quando fala dela é dando ares de homem cosmopolita e desprendido, e ELE finge até acreditar, enquanto ele finge, fala obsessivamente o nome LÚCIA, o centro irradiador de todo o passado e futuro dele, ELE, enquanto peça que ama.