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sexta-feira, 11 de julho de 2008

A viagem de Lídia - parte 4


Lídia está folheando, com vagar, uma revista masculina. Tem um pensamento novo. Considera que a livraria tem um acervo moralista. Procurava por uma revista erótica, mas só encontra revista para homens, com mulheres nuas, em pose quase artísticas. Balela, diz Lídia, se pudessem, alguns homens desejariam ver órgãos vitais femininos. Lídia diz essa frase em voz quase alta e parece que foi outra mulher que o fez. Ri do seu evidente progresso. Então, sente uma pressão de outro corpo. E Lídia sente a pressão de um corpo cujo pênis está ereto. Em voz muito sensual, Marcos aperta Lídia, que está no fundo da livraria. Ele diz: preciso muito falar com você. Lídia vira-se, cenho cerrado e diz: vai me largar agora ou vou chamar o segurança? Marcos está visivelmente alterado. Olhos de desejo misturados com olhos marejados. Implora, ameaça fazer um escândalo. Lídia pensa consigo mesma: lá vamos nós. Marcos e Lídia saem da livraria. Sentados numa das poltronas do aeroporto, Marcos implora, quer conversar com ela. Pelo menos mais um café. Marcos está ficando comovido. Há uma lágrima visível rolando pelo rosto de Marcos. Lídia faz uma concessão. Mantém-se firme, apesar de uma agitação íntima. Decide dar a ele dez minutos: Marcos, você tem dez minutos a partir de agora. Pegue seu relógio de exibição e cronometre. Lídia faz os cálculos, e tira uma média entre o pênis ereto e a lágrima furtiva de Marcos. Sentam-se e Lídia encontra novo conforto no espresso. Ouve uma síntese atropelada e inverossímil da tragédia familiar: perdeu a mulher e duas filhas num acidente, onde só ele saiu vivo. Lídia está entediada com a história mirabolante mas expressa condolências. Faz gestos compassivos. Marcos esboça um choro. E com a voz embargada, ouve Marcos dizer: Lídia, você é igualzinha a minha mulher. Lídia faz cálculos. Há atrasos por todo o aeroporto. Seu vôo está previsto para dali a seis horas. Marcos também tem tempo. Antes dos últimos segundos que disponibilizou, ela diz, categórica: Marcos, meu bem, vamos a um hotel próximo daqui. Você paga todas as despesas. Eu te dou três horas. Faz uma pausa estratégica. Aproxima o seu rosto do rosto de Marcos. Deixa a boca semi-aberta, indicando excitação, mordisca a parte de trás da nuca de Marcos. Passa a mão pelos cabelos macios e toca de leve a sua orelha. Enquanto isso, com a outra mão, aperta levemente seu pênis. E encerra a conversa, dizendo baixinho, quase sussurando, numa voz melosa e sensual: Marcos, meu macho, faz o que quiser comigo, meu bem. Eu sou toda sua. Marcos está perplexo. Levanta-se. Pega uma das mãos de Lídia. Ela estaca. Faz Marcos parar e diz: Marcos, a partir deste minuto, cronometre.

domingo, 6 de julho de 2008

A viagem de Lídia - parte 3

Lídia anota o telefone do homem elegante. Paga a conta, apesar do seu protesto. Lídia sabe que o poder deste homem é pagar pequenas contas para mulheres que deseja impressionar. Ri, discretamente, ao sair dando dois beijos leves na face deste homem trêmulo. Sente o olhar deste homem, quando lhe dá as costas e segue, desfilando no caminho da livraria. Sabe que ele está perplexo, que nunca esperava ouvir as coisas que ela lhe disse. Lídia cercou o homem elegante com sedução explícita. Detalhou algumas promessas. Expressou abertamente o desejo e o projeto. Assim que voltasse, eles se encontrariam. No hotel escolhido por ela. Deu a ele todos os detalhes práticos. Antecipou fantasias e acertou pequenas providências. Hotel por conta dela. Passeios ele pagaria. E gastos com alimentação, sempre divididos. Perguntou a ele a cor preferida para roupa íntima. Perguntou se preferia que ela estivesse vestida com alguma vulgaridade. Apesar de visivelmente nervoso, respondeu que sim, sem exageros, que sim preferia calcinha tipo fio dental, que sim gostaria que fosse de renda, que sim, gostaria que fosse transparente, que sim, adoraria perfume afrodisíaco, que com certeza adoraria saltos altos. Lídia foi incisiva: nada de atrasos. Chegue no aeroporto antes do horário do meu vôo. Se houver morte na família, falte ao enterro ou desista. E não pense que vou embora, foi isso que Lídia disse, como ataque frontal a sua virilidade: Marcos, tudo que eu prometi fazer com você, incluindo a calcinha e os saltos, eu vou fazer com outro homem. E vou escolher no aeroporto, como escolhi você. E vou enviar fotos para seu celular. Lídia desfila enquanto relembra a conversa. Pode parecer que não, mas Lídia está começando a gostar deste jogo. Lídia já vislumbra a possibilidade de viver em aeroportos.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A viagem de Lídia - parte 2

Então, com todo o dinheiro resgatado, e o êxtase pela vizinhança, pegou um táxi impessoal. Sem economia, sem gorjeta, sem conversas. Inacessível, sem exposição. Face quase impassível até a entrega da mala, mínima. Solta, casaco preto e sapatos confortáveis. Antes do café, uma dose boa de whisky. Depois, o prazer vagaroso: café sorvido em goles matemáticos. Gostava da força em medir os gestos. Escolheu gestos para efeitos planejados. Sabia que o ar desprendido atraía olhares. E abusou das arrumações estéticas. Para onde ia? Para o aeroporto do outro lado do Oceano Atlântico. Ali, a viagem seria diária. A mulher destemida e sem compromissos. A mulher disposta a todos os jogos. A mulher capaz de pagar para ter um homem na sua cama, no melhor hotel da cidade. Esta mulher, cheia de força e mistério começava o show. E o homem elegante, que lhe perguntou as horas, apesar de possuir um relógio bem visível no pulso, foi o primeiro coadjuvante. Ela soube reagir, com um sorriso teatral e, no segundo café, deixou que aquele homem pensasse que ela era uma mulher cortejada.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A viagem de Lídia - parte 1

Dedicado a Mr Almost, que está convocado a ler, sempre que quiser, e enviar sugestões de montagens
As coisas que não aconteceram me impressionam. Fatos possíveis de acontecer. Histórias que vou montando com pedaços da constelação de histórias que conheço. Gosto de montar histórias assim. Aos pedaços, fazendo uma mistura insólita, observando se há possibilidade de, ao fazer a história não existente, sugerir ao universo que a realize. Uma proposição inventada, de fatos recolhidos recentemente, seria a história do desembarque de uma mulher audaz e destemida, atualmente sem compromissos afetivos. Após um ano de trabalho exaustivo, recebe uma indenização aguardada durante muito tempo, da qual pouco se lembrava. Deste modo, tem em mãos uma quantia sem destino. Este dinheiro que tem valor simbólico e para o qual não há gastos úteis previstos, ela decide usar para conhecer um país estrangeiro. Poderia ter se dirigido a uma agência e integrar-se ao destino fácil, um pacote feliz de turismo óbvio e sem riscos. Ao contrário, escolhe sozinha, o país e o aeroporto. Troca todo o dinheiro recebido por dinheiro estrangeiro. Compra mala, frasqueira e mochila, combinando padrões e cores. Diferente de outras viagens, leva pouquíssima bagagem. Leva inclusive roupas usadas, que pretende descartar pelo caminho.