Então, fechamos a porta. Ninguém nos alcança, neste quarto. Deixamos lá fora o dia e suas maquinações mágicas. A mágica da repetição variada: crianças alegres na escola, funcionários na véspera das férias, a mulher na hora do seu primeiro parto, um homem que beija a mulher amada, a feira ruidosa, em alguma sala uma festa de flores recém chegadas, o pai que abraça o filho, uma abelha feliz e uma formiga nervosa. Deixamos lá fora os papéis tão ajustados. Então, neste quarto de hotel desconhecido, quero que você me ouça. Fique em silêncio, por alguns instantes e ouça as minhas perguntas. As perguntas que me explicam, os defeitos que me fazem distinta, mulher que você escolheu quando percebeu um sorriso quase triste, uma certeza feita de abalos, os medos misturados aos gestos impulsivos. Olhe para mim, neste cômodo refratário ao barulho do dia, e acredite que também sou feita de dores suspeitas, alegrias fracas, desejos vis, e uma vã esperança de que exista vida após a morte. Não vamos repetir o manual de sempre. Não é preciso sexo agora, nem falsas promessas. É preciso que este cômodo seja reservado para nosso abraço. É preciso que estas quatro paredes regulares testemunhem a vitória, a honra e a glória do afeto. Que o abraço traduz, com perfeição.