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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Reedição - postagem de 18 de dezembro de 2007

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Dedicado aos tolos, que acreditam nas dedicatórias


Já foi um risco. Que se eu ampliar, vira um traço e vai ser o que você quiser. Até um mundo. Meus ouvidos cheios da tua malícia. E meu corpo respondendo, obediente. Sim, para esta língua vagarosa. Sim, para estes braços ágeis. Sim, para as palavras sem gramática. Sim, para todas as vezes em que você girou meu corpo e foi como se girasse a terra toda. Sim, para os beijos que abriram todas as portas e me trouxeram a este desejo de descanso. Sim, em todas as horas desta tarde, e sim, para todas as noites em que terei gozo e graça. E tua lembrança.

domingo, 8 de junho de 2008

Aterrissagem

Mais uma vez, para provar a vida em outras terras, o pássaro desacelerou. Espichou as pernas, estalou os dedos e soltou alguns bocejos. Estrada deserta. Poeira e zumbidos. Horizonte circular. Tudo como o ensaio geral. A vida ríspida. A vida pousada na árvore, sem pressa. Uma fruta, um símio, uma cobra. Olhos do alto. Observações neutras. O movimento ritmado da cobra. A vida breve e definida da fruta. A gesticulação alegre de um macaco. E a vida repleta de besouros, miniaturas de manhã e chuva.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Mães

Eu disse, vociferando: Puta que o pariu. Ele me questionou, com o punho ameaçando um soco: E se eu te disser que minha mãe não é uma puta. Eu, com vontade não de apanhar, mas de morrer, respondi: Vai ficar o dito pelo não dito. A lojinha era escura. Eu entrei ali para comprar envelopes. Ele entrou ali para me roubar. Ele era muito alto. E eu, sempre pequena. Eu inclinei a cabeça para o alto, e nossos olhos se encontravam numa linha oblíqua. Ele me dava sinais de que havia uma arma. Eu decidi dizer tudo que me passava pela cabeça: você quer a minha bolsa, o meu dinheiro, os meus cartões, e eu vou esfregar isso tudo na sua cara, você quer me humilhar porque você é grande e hoje é meu dia de não aceitar mais humilhações, eu estou no meu limite, entendeu, e pode usar esta arma e usa agora, porque agora, antes de eu colocar essa carta definitiva no correio, é a melhor hora para morrer, e eu não tenho medo da sua altura, nem da sua faca, nem do seu revólver, eu quero que você me mate e me mate agora mas pára de encher meu saco e eu não vou gritar chamando a polícia porque a polícia me dá nojo, e eu acho que você pode me fazer este favor porque a sua eu não sei, mas a minha mãe é uma puta e eu quero que ela vá pra puta que pariu e leve todas as mães e avós deste mundo e leve junto todas as pessoas grandes que me ameaçam e eu só estou esperando, atira. Ele não atirou, ele não pegou a bolsa, nada. Ele saiu, a vendedora, agora sem cor nenhuma, me elogiou: nossa, que coragem a senhora tem. Eu olhei para a moça fraca que ela era e disse: vá pra puta que pariu você também. Sorte sua eu não estar armada.