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domingo, 29 de junho de 2008

Happy hour

Para Maroca, do Leve & Solto, inspirada nas provocações que só ela sabe fazer.


Final do mês. Dia de pagamento. A euforia do salário na conta bancária. O projeto de nossa equipe, aprovado com distinção. O acréscimo luxuoso do encontro na filial. Todo nosso grupo embarcando para a Itália em poucos dias. A animação era quase excessiva. E o excesso estava próximo, podia ser calculado pela quantidade de álcool que circulava. Dei um jeito de sentar ao seu lado. Dois copos de vinho me garantiam a dose de ousadia. Hoje você iria para o meu apartamento. De qualquer jeito. Isso meu corpo ordenava. E a parte em mim ainda lúcida, atada aos padrões velhos, dizia, com tom de censura: ele é seu chefe, isso não pode dar certo. Tirei o terninho preto que o maitre levou junto com minha bolsa. A blusa, de tecido muito fino, deixava colo à mostra. Minha pele exibia o tom correto do bronzeamento artificial. Ouvi comentários alegres sobre isso. Eu, a paulistana mais baiana que todos conheciam. E comentários surpresos sobre minhas estrelinhas tatuadas no braço. Bendisse aos deuses a existência de depiladoras. A perna lisa, sem obstáculos de meias finas. E foi assim que eu comecei a convidar você. E as frases que minhas pernas proferiram foram seguidas das frases da minha mão, apenas tocando de leve porções da sua pele, que a euforia do grupo ajudava a ficar cada vez mais próxima. Fui ao banheiro. Era urgente outra dose de perfume. Era urgente verificar se tudo estava correto. Eu precisava escovar os dentes, mais uma vez. Eu precisava lavar o rosto. Eu precisava me acalmar. E na saída, ajeitando uns fios de cabelo, vi, do espelho, seu corpo chegando. E vi, do espelho, seu rosto ficando muito, muito, muito perto. E senti um fogo em meu corpo, porque o seu estava quase ocupando o mesmo espaço que o meu. E o trabalho do vinho me orientou para entrar novamente no banheiro feminino, o banheiro reservado às mulheres com necessidades especiais, o banheiro que eu sempre escolhia porque era mais espaçoso, o banheiro refinado e excessivamente limpo daquele restaurante chique, o banheiro onde a verdade do meu corpo se apresentou, em noite de gala.