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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Coleção e persistência

Objeto inclassificável, esta nuvem, prévia de chuvas, meio peso, quase leveza, esta floração, este anel, a geografia e ventos, caracóis, eu.


Objeto inclassificável, esta música, barco para navegações improváveis, esta dança sobre águas, o gesto do messias, os animais e a arca, eu.


Objeto inclassificável, este filme, o quadrado e as histórias, esta fábula, a mesa posta, esta noite inacabada, o deserto e mil chuvas, eu.


Objeto inclassificável, esta fruta, e seu tempo breve, instalação fugaz, esse canto, a passagem, essa ponte e travessia, fuga da doçura, eu.


Objeto inclassificável, esta asa, hora do parto, alegria do abismo, disparada, este risco no céu, o milagre, suspensão da medida, o vôo, eu.


Objeto inclassificável, esta hora, fim de tarde, pássaros escondidos, início do infinito, anúncio de amanhã, esta tarde, noite em breve, eu.


Objeto inclassificável, esta bola, o campo verde, homens desiguais, esta dança, os gritos, diferenças transversais, esta guerra, o amor, eu.


Objeto inclassificável, esta pedra, superfície do conflito, tempo parado, musgo e líquido, o não, a violência breve, suspensão, bálsamo, eu.


Objeto inclassificável, estes pés, andarilhos, aos pares, em pensamento e gesto, estes pés, suas dores, linha reta ou imprevistos, ágil, eu.


Objeto inclassificável, esta música, linha percussiva de júbilo e glória, um túnel, o medo, salvação, os acordes, nesta borda, o ofício, eu


Objeto inclassificável esta noite, uma vespa e a dança, esta noite, os gestos e o palco, decisão, mar dentro da árvore, e a casa branca, eu.


Objeto inclassificável este vidro, asfalto breve da alma, este vidro, um triz e vento, aos tropeços, este vidro, no endereço das cartas, eu.


Objeto inclassificável esta casa, caixa mar e árvore, arranjo de urgências, esta casa, um bosque e brumas, a estrada, a mesa, esta casa, eu.


Objeto inclassificável, esta árvore, folhas em assembléia, este caule, fé ainda, este abrigo, esta árvore, céu país de nuvens, este vôo, eu.


Objeto inclassificável, este mar crispado, lírio insone, este mar de algumas plantas, donzelas, vícios, este mar, gritando, água viva, eu.


Objeto inclassificável, esta caixa sonora e irregular, esta caixa de nervos e algum sangue, esta caixa que sente e se perde, esta caixa, eu.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Tinta

Escrever me deixa arisca. Entendo o que é ser um gato. E me arrepio, pronta para uma guerra particular. Escrever confunde você e sua leitura obtusa. Não é aqui que estou e me ausento diariamente do mundo. Quando chegar a hora, aquela que é a mesma para todos, alguém vai querer saber o que é essa fervura, o que é essa ânsia, o que é esse impossível. Escrever me irrita. Escrever me persegue. Escrever me deixa assim, ausente e sem respostas. E quando escrevo, estou inteira, estou no campo e jogo em todas as posições. Tenho medo quando escrevo dores, me surpreende essa escrita dolorosa, enquanto o almoço está sendo posto. Sem pedir, me desperta uma vida alheia, de paixão e morte. E meus olhos arregalados obedecem e escrevem. Publico, choro e rio e cubro os olhos, apavorada.

domingo, 2 de novembro de 2008

Urna

Para Roney, porque entre uma conversa e outra, você sempre me inspira



Os homens guardam os corpos mortos num quadrado de tristezas. Deixam confinados em túmulos, mausoléus ou caixas, a variedade e a rota dos encontros. Os homens enquadram e enterram, sobre pedras monótonas, toda e qualquer esplêndida vida, depois que se acalmou e não respira mais. O passado das folhas é apenas o modo descuidado como elas guardam o infinito. Destacadas das árvores, supostamente fora da vida, as folhas descansam esparramadas sobre o solo. Mas este descanso é, na verdade, a sua dança permanente. Expostas ao vento, dispostas aos gestos novos do futuro, as folhas caem e sobem aos céus, todos os dias.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Sem perdão

Cuidar de uma criança com tal dedicação como se cuidássemos de outra, e esta outra, símbolo de todas, pertencesse a nós e ao mundo. Tratar bem a um ser pequeno, completamente vulnerável, morando dentro de uma solidão absurda. Imaginar, que a essa hora, uma quantidade quase infinita, ao incluir as que estão por nascer, de crianças desprotegidas estão espalhadas pelo mundo. Ameaçadas pelas tempestades e terremotos, que também ameaçam os pais. Ameaçadas pelos tiroteios, que também ameaçam seus vizinhos. Ameaçadas pela política econômica que também ameaça as águas do planeta. Colocar na nossa mão o pássaro mínimo que é uma criança, cuidar primeiro do corpo frágil de uma criança e depois cuidar do corpo frágil do seu coração. Para o bem das crianças, amar cada criança deve ser como amar a si mesmo. E se a lição do amor por si mesmo estiver mal feita, lançar a proposta urgente de uma alfabetização pela auto-estima. Cuidar de uma criança dando as mãos e toda nossa memória à criança que fomos, quando assustados pelos gritos, açoitados pelo frio, acuados pelo olhar estranho de um adulto mal amado.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Celine

Se você vestir a roupa azul da santa, juntar as mãos e mantiver a expressão impávida das santas, poderá ouvir minha conversa com o tempo, anjo negro guerreiro, que corre sobre as coisas que me acontecem. Vai sentir o ruído da espada certeira do tempo que assinala a injúria das coisas que me acontecem. O tempo que atropela as traições, o tempo que transforma todas as minhas dores em dores do passado. Quero que você coloque esse vestido azul, feito especialmente para seu balé sobre as águas. E quero que você ouça a lista infinita das minhas descrenças. Flor que abranda as nuvens pesadas, quando você me procura, quando você diz o meu nome e procura pelo meu paradeiro, é uma santa agradecendo pelas velas que acendi, pelos rituais que cumpri, pelas rezas repetidas que ensaiei. Santa Celine, roga apenas por mim. Deixa eu ser o único fiel desta igreja. E faz do teu altar a cama quente que abrigará a substância, os pregos fiéis que não se soltam. Os pregos que expôem meu corpo e minha alma, dias seguidos sob o sol, diante desta multidão de coisas que acontecem. Corpo fixado, braços abertos e olhos vidrados sobre a rota dos instantes. Os que se despedem de mim, deixam marcas.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Cobertura

Pega a minha mão e me leva daqui. Esse pesadelo já durou tempo demais. A voz não sai e este grito surdo talvez não desperte seu sono. Vejo o chão, do alto do edifício e sinto que ela está chegando cada vez mais perto. Não quero pular. Não quero sangue nem dor. Estou dormindo e sei que não tenho asas. Se eu ao menos conseguir apertar sua mão. Parece que o prédio está ficando cada vez mais alto. Já não enxergo os automóveis nem as árvores. Tenho medo de ver meus ossos quebrados e a carne exposta. Sei que no próximo instante ela vai me obrigar ao salto. Quero sua mão. Preciso encontrar o portal. Preciso atravessar essa ponte. Estou dormindo e sei que vou cair agora.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Pássaros num filme de suspense

Quero fazer poema para cegos. Talvez não seja exatamente um poema transcrito em braile ou outro sistema tátil. Tampouco quero escrever um poema que um cego possa ouvir. Quero escrever um poema para uma pessoa cega. Um poema impossível de ser lido. Um poema que, sem ser lido, diga algo para o cego que não vai ler. Neste poema, eu diria ao cego todas as coisas que nunca entendi. Vou declarar no poema medos inconfessáveis. Vou preparar uma lista de imagens estranhas e desconexas. Apoiada na cumplicidade do leitor que não vê, farei um poema monstruoso. No espaço deste poema, desenharei pessoas com várias pernas, e estas pessoas serão ágeis. Vou contar histórias de amores que não doem. Os cegos vão acreditar nisso. Direi a eles que compreendo um assassino. Direi também que admito as perversões dos meus amigos que se julgam dignos. Neste poema para não ser lido, posso fingir que desejo vários homens. Isso me isentará da ilusão romântica do amor gêmeo, do amor único. Os cegos saberão que tenho medo de morrer hoje e saberão ainda que há dias em que morrer seria a opção mais confortável. Para os cegos, vou dizer que este dia que nasce, precocemente, diante da minha janela, na forma deste espetáculo óbvio de sol e pássaros, vou dizer a eles que este dia me assusta. Tenho medo da bagagem dos dias e só um cego vai me entender, quando eu disser que os dias me cansam.

domingo, 30 de março de 2008

Oráculo

Eu imagino a cena em que o fogo começa. Todas as vezes em que pergunto quem sou eu. Não há dor neste momento, e posso ver o fogo me consumindo. O corpo começa a ser queimado pelo fogo desta pergunta. Primeiro a combustão dos cabelos e das unhas. Enquanto questiono a mim, o fogo queima minha pele. E porque insisto, vai o fogo fazendo o trabalho de resposta: queima meus órgaõs, músculos, vísceras, células, até chegar nos ossos. E o fogo, sábio, interrompe e põe em mim olhos contemplativos. Insisto na pergunta e o fogo, impassível, reduz tudo que é meu corpo a puro pó. Estamos num descampado e, imediatamente, o vento leva a síntese do corpo de mim mesma. Restamos apenas eu e o fogo. E ele decide interferir na seqüência dos meus pensamentos. Declara que eu e todas as pessoas que me rodeiam, são apenas coisas vivas. Coisas vivas que nunca param. E que é essa a única resposta disponível. Eu sou, apenas enquanto me movimento.

sábado, 29 de março de 2008

Verbete

Nenhuma câmera escondida vai permitir que você se aproxime da dor de uma mulher que grita, sozinha, no quarto, e quebra os perfumes e o espelho. O que ela pensa está escrito em fúria. A solidão, estilhaçada nas paredes, muitas vezes tem ilusão de companhia. O amor partiu. O amor nunca mais voltou. O amor dorme no quarto ao lado, e ronca na sua dessemelhança. E baba nos travesseiros seu sono e insensibilidade. As piadas, o humor e o chiste vão fazer a caricatura e apresentar a mulher dolorida como o habitante extremo de outros mundos. Algures, a esfinge, sereia complicada em teias e delírios. Olhe pela fresta, seja o voyeur sistemático não apenas dos gestos e do drama. Ouça, se aproxime, toque essa substância vaga e imprecisa. Deixe chegar até seu íntimo a lição do dicionário e dos vulcões.

domingo, 23 de março de 2008

Automática

Que importância há no fato de que vejo a chuva através da minha janela e são já duas horas da manhã e não há sinal de sono algum que venha trazer-me consolo após horas de espera vã sem ao menos um sinal de que ele teria recebido minha carta e ao recebe-la teria desejado meus beijos novamente ou teria dito ao funcionário depois eu leio agora me entregue a minuta da reunião que vai começar e hoje cheguei atrasado nem pude tomar café e sem tomar café não posso dizer que o dia começou e mesmo assim antes de deixar o prédio ele se lembra que deixou a tal carta na segunda gaveta e estava se preparando para lê-la ao chegar em casa porque sempre me disse que não era desses amantes apressados e gostava de ter um ambiente propício para abrir as minhas cartas e saborear minhas palavras e isso sempre me excitava ao escrever porque eu escolhia cuidadosamente cada adjetivo e as metáforas e sempre dava um jeito de dizer a ele com as melhores palavras disponíveis que nunca houve outro como ele e adorava reforçar a imagem que ele tinha de si mesmo de que era um excelente amante e eu sim exagerava por escrito e dizia que os beijos e dizia que as mãos e dizia outras coisas sem ser vulgar mas sem deixar de dizê-las para acender nele o orgulho da virilidade e ter a garantia de que ele voltaria para meus lençóis pois sempre soube que sexualmente eu era imbatível e sempre fiz o jogo para que ele esperasse apenas mais uma noite morna de sexo e depois nem pudesse acreditar que ainda houvesse mulheres como eu e por muitas noites quis meu corpo e meu cheiro que ele disse que era doce e então eu aceitei finalmente fazer daquele jeito e só com ele era mesmo a primeira vez e eu chegava mesmo ao orgasmo naquela posição e nenhum homem sabia fazer como ele até que o silêncio e nenhuma explicação e que importância tem o fato de que chove agora são duas da madrugada e ele não atende meus telefonemas e isto é véspera de mais um dia sem ele e sem vontade alguma de levantar e fechar a janela ainda que já possa ver daqui da minha cama o quarto começando a alagar.