Mostrando postagens com marcador Enquanto isso a estrada me leva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Enquanto isso a estrada me leva. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de novembro de 2010

Sábado

Agora
já é tarde
e acordei sem saber que quarto é esse,
o meu quarto de sempre.

Agora 
é cedo demais
para pegar a estrada
pois acabou a temporada de fugas
e há uma pilha de louças para lavar.

Agora
nem sei que horas são
dormi de tarde
acordei de ressaca
nao vi o dia passar e 
quero desviar meu corpo
do espetáculo desta noite.

Se eu gritar
os vizinhos vão ouvir
vão bater na porta
e talvez me levem 
para o hospital
para o hospício
para a rodoviária
para o aeroporto
ou para o IML.


Será melhor, então,
andar pela casa sem sapatos
relembrar o passado sem fazer alarde
rever as fotos sem esboçar um gesto sequer.


Fazer desta casa uma cela,
montar dentro da sala uma ilha,
usar o quarto para um playground precário
onde eu possa, pelo menos,
lembrar da alegria de pular na cama dos meus pais,
quando eu era criança
e não sabia que viver doía.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A bolsinha

O anjo, dando baforadas de alucinógenos, tranquilamente leu as cartas e disse a ela:
- Das duas, uma: ou vai lavar calcinhas de madame ou vai rodar bolsinha.
Tranquilamente, nasceu. Poderiam ter sido mais delicados. Ela choraria, de qualquer jeito, se lhe dessem tempo antes do tapa. Reagiu, e se soubesse falar teria dito:
- Que pressa é essa? Uma pessoa nasce e já precisa gritar para ser respeitada?
Tranquilamente, cresceu. E das imagens do oráculo, fixou-se na idéia de rodar pelas noites, nas ruas vertiginosas da noite, nas ruas encantadas da noite.
Desenhou o destino: com um vestido vaporoso e repleto de bordados e ornamentos, cabelos soltos e sempre limpos, corpo sempre disposto para dançar, no alto de seus sapatinhos de salto e cristal, rodava sua bolsinha mágica. E nesta dança, e neste giro, da sua bolsinha mágica, improvisava. E foi gestando um mundo circular, decorado pelas estrelas, águas, cores, diversidade de mares, folhas e flores engraçadas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Trânsito

Pouco importa se estou na plataforma, diantes dos trilhos estacionados ou diante do salão de desembarque. No aeroporto ininterrupto, simulo uma espera qualquer. Acho bonito os corpos em sua expectativa de resolução. Tenho inveja da transparente coincidência dos abraços. Flagro esta fotografia pessoal, do riso que passa por mim e me ultrapassa. No painel das chegadas, a permissão para meu desaparecimento e fuga: enquanto o dia segue a trilha óbvia das horas, há trens e aviões espalhados pelo mundo. Pessoas se movimentando entre medos e desejos. Dentro do carro, decido seguir até que um obstáculo mensurável impeça minha velocidade.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Calendário

O Natal passou e isto aqui não é uma árvore de Natal. Mas nestas palavras posso pendurar verdades provisórias. Amanhã, após a viagem do sonho, os carros vão me dizer que preciso acordar e ligar o termômetro. A explosão foi adiada. Ninguém vai morrer hoje a não ser aquelas mortes já previstas pelos jornalistas e estatísticos. Estou na porta do cemitério mas não sei qual é o cortejo que devo seguir. Alguém morreu e isso me importa. Nunca estive com Flávio, não sei a idade de Deise. Me surpreendo quando descubro que João Gabriel tinha apenas cinco anos. Agora, aprendi que posso chorar antes, no ensaio verdadeiro da despedida. Não sei quem morreu, mas sinto uma dor sem medidas.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Geometria

O alvo se movimenta. Dança, provocando minha paciência ensaiada. Esboço a ironia na frase. Quero gritar o ataque, e uma bomba seria o perfeito instrumento. Arma sem distinção, golpe sem classe. Bomba faz sujeira e é indistinta em sua fúria. O alvo dança. Movimenta partes do corpo e grita impropérios. O dardo pede vôo. Seta viajante, sedenta de destino. O alvo tira a roupa, bate no próprio peito e provoca o lançamento. Poderia usar pedras, que são armas infantis. Toda pedra, ainda que trôpega, pode realizar o trajeto. Pedra soco, pedra tapa, pedra como eu posso cuspir no rosto dos que me ofendem. Escolhi o alvo. E ensaio agora o disparo horizontal e decidido. Porta fechada, e eis o ponto que encerra a frase equivocada de uma vida em seu desperdício.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Tango

Se eu finjo que não te quero. Se você espera que eu te escreva. Se nós não anotamos o endereço certo. Se eu escolho outra esquina. Se é melhor dizer meias palavras. Se a outra mulher oferece mais pernas. Se o teu perfume agora me causa naúseas. Se a vizinha sempre soube. Se eu vi o filme vinte vezes. Se minha mãe me avisou. Se naquele dia a porta ficou aberta. Se o médico pediu os exames. Se o seu time fosse campeão. Se o bolo fosse mesmo de chocolate. Se o cheque não tinha fundos. Se a chuva passou, rápida. Se o seu casaco era da cor preta. Se as flores do vaso estivessem murchas. Se o prato florido não estava trincado. Se o café foi feito na hora. Se meus olhos ainda ardessem. Se teu coração estivesse batendo. Se esta música parasse. Se o dia, enfim, amanhecesse.