Jesus amado, me ame também. Desça agora dessa cruz e abandone essas paisagens e alturas monótonas. Vem comigo, vamos sentar na relva, para comer e beber e perder tempo. Chega de tanto trabalho, Jesus amado. Me entregue esse amor das escrituras como um pão multiplicado. Eu quero seu carinho diário. Fala comigo das coisas que não sei, me conte suas viagens por outros países. Me entregue distrações celestiais para eu não pensar na hora da minha morte. Desça agora dessa cruz infame, desça agora, com toda a paixão dos teus olhos, meu Jesus amado.
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sexta-feira, 10 de abril de 2009
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Graciosa
A noite chegou e parece que em tudo o dia de hoje foi um desperdício. Dia desses que se deseja o fim, com urgência. Quero escrever coisas bonitas. Jogo uma vasilha e ouço um baque metálico. A base do poço está seca. Desaparecimento das águas. Em tudo que escrevo, banalidades e imitações. Quero escrever umas frases de efeito. Frases circulares. Frases de fogos de artifício. E apenas listo pensamentos comuns e sem graça. Quero te seduzir com metáforas insólitas. E só consigo combinar a cor vermelha e uma paixão que sobra. Quero ficar quieta, sem textos me cercando, sem pedaços de poemas rondando minha cama. E volto a escrever a repetição. Pão requentado. Café cansado. Camisola que esqueceram de passar. Quero desligar a luz. E da janela do meu quarto recebo a gritaria da cidade.
sexta-feira, 21 de março de 2008
Proprietária
Jesus é Cristinho e é meu. Já ajustamos nossos idiomas. Ele sabe que eu o entendo. Solicita conselhos. Está doente, por isso passo muito tempo em sua casa. Vive tão sozinho que muitas vezes me pede para dormir ao lado dele. Tem muito medo do escuro. E reclama dos pesadelos horríveis que o perseguem. Tem um péssimo gosto no vestir-se. Quando vamos ao cinema, telefona e pede orientação para acertar a combinação das cores. Insiste em usar meias brancas. Agora que adoeceu, quer que leia histórias. Diz que me minha voz tem poder de cura. E quer me ouvir, até adormecer. Prescrevi os remédios que ele tem ingerido, regularmente. Levo para ele poções de rosas, ramos, florbelas, campos, marias, clarices, calvinos, rodrigues, assis, adélias, lúcias, leminski, baleiro, ramalho, paulo, mateus, lucas, marcos, provérbios, salmos, bach, limeira, franz, sílvia, chico, léon, cecília. Cristinho não gosta de shopping. Detesta rodízio. Tem síndrome de pânicos múltiplos. É alérgico a trânsito, dengue, hospital público, políticos, , casamento, plástico, frieira, textos mal escritos, dívidas, culpa, funcionários, perfume barato, mosquitos. Sabemos que tem data para morrer, mas ganhou um bônus de mil e uma noites e me pediu, com olhos úmidos, para eu sair do emprego e me instalar no quarto de hóspedes, para sempre.
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