Quatro paredes não salvam.
Um céu sobre a cabeça,
o solo aos seus pés
e a garantia de uma semana com sete dias,
exatamente.
O calendário não salva.
As datas de nascimento,
Os planos para o futuro,
o cheque depositado
e uma promessa de descanso,
nos domingos.
O amor não salva.
Filmes românticos na memória,
lençóis limpos e água fresca,
dádiva ensaiada
e depois gritos que dispersam todos os planos.
Só a morte salva.
A morte com sua limpeza,
a morte com seu silêncio,
sua fala apaziguada,
afinal, o fim definitivo
das dores, das surpresas, do cansaço,
dos milagres.
A morte salva. E regenera.
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sexta-feira, 5 de novembro de 2010
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Decalque
Talvez a fala breve de uma folha,
talvez o gesto leve de um inseto
talvez o grito alto de um tigre
Em mim, essa conversa alucinada
de ser eu mesma e quase outra,
uns pés a frente e a alma longe.
Acordo, diariamente, neste corpo,
Belisco o corpo e então me certifico,
que ainda sou, idêntica e cópia,
na fala breve, feito folha,
no gesto leve, feito inseto
no grito alto, o meu tigre.
talvez o gesto leve de um inseto
talvez o grito alto de um tigre
Em mim, essa conversa alucinada
de ser eu mesma e quase outra,
uns pés a frente e a alma longe.
Acordo, diariamente, neste corpo,
Belisco o corpo e então me certifico,
que ainda sou, idêntica e cópia,
na fala breve, feito folha,
no gesto leve, feito inseto
no grito alto, o meu tigre.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Leveza
Deixar o medo entrar,
Servir um chá com biscoitos
Buscar assunto, falar do tempo.
Deixar o medo abrir,
uma a uma,
todas as gavetas.
Olhar os gestos teatrais do medo
jogando no meio da sala
todos os seus segredos,
e os papéis de bala, bilhetes, cartas, ingresso de cinema, mecha de cabelos, postais, velhos endereços.
Desdenhar do medo,
servir outra xícara de chá,
mudar de assunto,
falar do tempo.
Abrir a porta para o medo partir,
atear fogo aos restos de toda uma vida,
expostos no chão da sala,
e sorrindo lembrar
que o medo também morre.
Servir um chá com biscoitos
Buscar assunto, falar do tempo.
Deixar o medo abrir,
uma a uma,
todas as gavetas.
Olhar os gestos teatrais do medo
jogando no meio da sala
todos os seus segredos,
e os papéis de bala, bilhetes, cartas, ingresso de cinema, mecha de cabelos, postais, velhos endereços.
Desdenhar do medo,
servir outra xícara de chá,
mudar de assunto,
falar do tempo.
Abrir a porta para o medo partir,
atear fogo aos restos de toda uma vida,
expostos no chão da sala,
e sorrindo lembrar
que o medo também morre.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Longitude
Os desejos em mim,
estas conchas grudadas no rochedo,
o mar que luta contra os limites do rochedo,
e os sonhos que são ondas
desaparecendo ao toque
estável dos rochedos.
Os sonhos, pedaços encantados
e cenas sortidas,
da construção diária
de uma cidade e seu delírio.
Antes das pedras,
antes das cercas,
construir sobre as águas,
passarela do sonho,
o mapa traçado com a fumaça
de aviões gráficos
o futuro de uma cidade inteira,
reinado melancólico.
estas conchas grudadas no rochedo,
o mar que luta contra os limites do rochedo,
e os sonhos que são ondas
desaparecendo ao toque
estável dos rochedos.
Os sonhos, pedaços encantados
e cenas sortidas,
da construção diária
de uma cidade e seu delírio.
Antes das pedras,
antes das cercas,
construir sobre as águas,
passarela do sonho,
o mapa traçado com a fumaça
de aviões gráficos
o futuro de uma cidade inteira,
reinado melancólico.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Latitudes
Ainda que eu me mova,
Me despeça,
Tranque a sala e esqueça
as luzes acesas.
Ainda que eu tenha a última palavra,
decepcione,
saia da sala deixando
você falar sozinha.
Ainda que eu prenda a respiração,
na entrada do túnel,
faça um pedido
e comece a acreditar em Deus.
Ainda que o vento levante minha saia,
no meio da rua,
caia chuva
e meu penteado se desfaça.
Ainda que eu pague as contas,
reclamando do meu salário,
peça demissão
e mude de cidade.
E mesmo que eu arrote,
surpreenda, grite, desista, suspire, engasgue,
provoque, humilhe, espezinhe, celebre,
esqueça, acumule, finja, adore,
caia de joelhos
e levante as mãos para o céu.
Nenhum arco-íris é meu.
Me despeça,
Tranque a sala e esqueça
as luzes acesas.
Ainda que eu tenha a última palavra,
decepcione,
saia da sala deixando
você falar sozinha.
Ainda que eu prenda a respiração,
na entrada do túnel,
faça um pedido
e comece a acreditar em Deus.
Ainda que o vento levante minha saia,
no meio da rua,
caia chuva
e meu penteado se desfaça.
Ainda que eu pague as contas,
reclamando do meu salário,
peça demissão
e mude de cidade.
E mesmo que eu arrote,
surpreenda, grite, desista, suspire, engasgue,
provoque, humilhe, espezinhe, celebre,
esqueça, acumule, finja, adore,
caia de joelhos
e levante as mãos para o céu.
Nenhum arco-íris é meu.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Dicionário
O que é um poema,
corpo estranho
na engrenagem,
ervilha seca
num relógio
bola de gude
que a criança
engole e não digere.
O que é um poema,
agora, de manhã,
antes de ir
para o trabalho
fingir para aumentar
o índice de produtividade
enquanto os sonhos
disparam, velozes.
O que é um poema,
em minha cabeça,
todas as horas,
linhas de fuga,
malas prontas,
nenhuma bagagem
e todas as viagens.
O que é um poema,
nenhum sossego,
passaporte sem foto
fileira de perguntas,
homens e mulheres
na fila da sopa,
o inverno sem fim,
as perguntas,
as perguntas,
as perguntas.
O que é um poema,
e sua dedicatória,
aos amores,
aos partos prematuros,
a cansativa imagem da lua
sobre o mar
a lua refletida no mar
imagem repetida
e sempre deslumbrante,
coisas que deslumbram,
coisas que assustam,
coisas que não param,
a viagem,
a viagem,
a viagem.
corpo estranho
na engrenagem,
ervilha seca
num relógio
bola de gude
que a criança
engole e não digere.
O que é um poema,
agora, de manhã,
antes de ir
para o trabalho
fingir para aumentar
o índice de produtividade
enquanto os sonhos
disparam, velozes.
O que é um poema,
em minha cabeça,
todas as horas,
linhas de fuga,
malas prontas,
nenhuma bagagem
e todas as viagens.
O que é um poema,
nenhum sossego,
passaporte sem foto
fileira de perguntas,
homens e mulheres
na fila da sopa,
o inverno sem fim,
as perguntas,
as perguntas,
as perguntas.
O que é um poema,
e sua dedicatória,
aos amores,
aos partos prematuros,
a cansativa imagem da lua
sobre o mar
a lua refletida no mar
imagem repetida
e sempre deslumbrante,
coisas que deslumbram,
coisas que assustam,
coisas que não param,
a viagem,
a viagem,
a viagem.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Cereal
O galo rouco
quase bêbado
canta completamente
fora de hora.
O galo louco,
fora de hora,
canta,
completamente rouco.
Fora do fuso
o galo canta
antes do almoço
na hora exata
em que eu acordo
talvez ainda bêbada e rouca,
feliz por não ter memória.
O galo e eu,
irmanados
na lentidão e no atraso,
perdemos a elegância
de cumprimentar a aurora.
quase bêbado
canta completamente
fora de hora.
O galo louco,
fora de hora,
canta,
completamente rouco.
Fora do fuso
o galo canta
antes do almoço
na hora exata
em que eu acordo
talvez ainda bêbada e rouca,
feliz por não ter memória.
O galo e eu,
irmanados
na lentidão e no atraso,
perdemos a elegância
de cumprimentar a aurora.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Mandamentos
O sonho é a história
ao contrário
Registro sutil e intocado
de regiões desconhecidas
terras nunca registradas nos mapas.
O sonho é a soma
de todas as viagens inventadas
e além disso.
Porque nem toda matéria
ali frutificada
tem existência na memória diurna.
No sonho incorporo
o amor perdido
o amor desenhado com nanquim
o amor bordado nas toalhas extensas e desmedidas
No sonho realizo
a fantasia dissidente
a orgia permitida
e encontro o êxtase de mil faces.
No sonho, pertenço aos homens
que não existem
e me entrego aos homens
que me possuem.
No sonho, os legisladores
em estado letárgico
não lembram
e não esperam.
ao contrário
Registro sutil e intocado
de regiões desconhecidas
terras nunca registradas nos mapas.
O sonho é a soma
de todas as viagens inventadas
e além disso.
Porque nem toda matéria
ali frutificada
tem existência na memória diurna.
No sonho incorporo
o amor perdido
o amor desenhado com nanquim
o amor bordado nas toalhas extensas e desmedidas
No sonho realizo
a fantasia dissidente
a orgia permitida
e encontro o êxtase de mil faces.
No sonho, pertenço aos homens
que não existem
e me entrego aos homens
que me possuem.
No sonho, os legisladores
em estado letárgico
não lembram
e não esperam.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Firmamento
Eu deveria ser um animal
diante da realidade.
Um animal bem instalado sobre quatro patas
Um leão para esbravejar diante das humilhações
Uma vaca para expressar o tédio
Uma cabra para fugir lépida
Um cavalo para exibir superioridade.
Eu deveria ser um animal
diante da realidade.
Um réptil para ensinar leveza
Um peixe para decifrar os mares
Um inseto para dar lições de insistência.
Seria pássaro para ensinar filosofia
Borboleta para divulgar a brevidade e o fim próximo
Tatu para admitir os erros
E avestruz para os momentos de reflexão
Seria um pavão nas aulas de ciência
Uma girafa para entender o solo
Vaga-lume para aplacar a idéia soturna da morte
Mas se eu fosse um animal
qualquer,
nascido de qualquer espécie,
seria sempre um animal
em estado permanente de deslumbramento
diante do brilho pretérito de uma estrela.
diante da realidade.
Um animal bem instalado sobre quatro patas
Um leão para esbravejar diante das humilhações
Uma vaca para expressar o tédio
Uma cabra para fugir lépida
Um cavalo para exibir superioridade.
Eu deveria ser um animal
diante da realidade.
Um réptil para ensinar leveza
Um peixe para decifrar os mares
Um inseto para dar lições de insistência.
Seria pássaro para ensinar filosofia
Borboleta para divulgar a brevidade e o fim próximo
Tatu para admitir os erros
E avestruz para os momentos de reflexão
Seria um pavão nas aulas de ciência
Uma girafa para entender o solo
Vaga-lume para aplacar a idéia soturna da morte
Mas se eu fosse um animal
qualquer,
nascido de qualquer espécie,
seria sempre um animal
em estado permanente de deslumbramento
diante do brilho pretérito de uma estrela.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Manhã
Quando a chuva cai
Avisa que é chegada a hora
de interrupções
A chuva ordena uma parada
Determina que o ritmo seja alterado
E que a respiração seja ouvida
Mas nós, ansiosos e humanos, recebemos a chuva
com cera nos ouvidos
e uma boa dose de tédio
Porque a chuva tem uma sabedoria antiga
E nos explica, disciplinadamente,
sobre a necessidade
de pausa
e desta pausa se pode fazer
toda a música
que se chama
vida.
Avisa que é chegada a hora
de interrupções
A chuva ordena uma parada
Determina que o ritmo seja alterado
E que a respiração seja ouvida
Mas nós, ansiosos e humanos, recebemos a chuva
com cera nos ouvidos
e uma boa dose de tédio
Porque a chuva tem uma sabedoria antiga
E nos explica, disciplinadamente,
sobre a necessidade
de pausa
e desta pausa se pode fazer
toda a música
que se chama
vida.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Missa
Este chão que já deu uvas
Espera apenas que venham águas ou desertos
Todas as uvas arrumadas
Efeito de verdade e festa
Uvas no ponto da desagregação do sumo
Até que se transfigurem
Na hora da missa,
pão e vinho incorporados.
Este vinho já foi fruto
Rio persistente de açúcar
Espera agora o delírio
Do corpo que o recebeu.
Transfigurado em pai e filho
Unidades de memória
na hora da morte
recebendo a hóstia
desacreditada e sem sabor.
Esta missa, cena ensaiada e ritual
Encerra o dia e seus arredores
Clama pelos sinos que estão mudos
E abençoa a todos os ausentes
Aqueles que perdidos no deserto
Encontraram no chão sem frutos
a casa do amor nômade,
jardim de verdades
no vinho das igrejas
Espera apenas que venham águas ou desertos
Todas as uvas arrumadas
Efeito de verdade e festa
Uvas no ponto da desagregação do sumo
Até que se transfigurem
Na hora da missa,
pão e vinho incorporados.
Este vinho já foi fruto
Rio persistente de açúcar
Espera agora o delírio
Do corpo que o recebeu.
Transfigurado em pai e filho
Unidades de memória
na hora da morte
recebendo a hóstia
desacreditada e sem sabor.
Esta missa, cena ensaiada e ritual
Encerra o dia e seus arredores
Clama pelos sinos que estão mudos
E abençoa a todos os ausentes
Aqueles que perdidos no deserto
Encontraram no chão sem frutos
a casa do amor nômade,
jardim de verdades
no vinho das igrejas
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Periferia
Para Celso Athayde
Tenho medo de morrer
Mas queria morrer
Com o peito cravejado de balas
Com o peito cravejado de balas
Eu morreria, apesar do medo,
Se fosse preciso salvar uma criança
Se fosse preciso e eu tivesse coragem
Salvaria uma criança e morreria
Com o peito cravejado de balas
Se uma criança fosse ameaçada
Diante de mim eu veria a morte
E meu peito cravejado de balas
Não seria a coragem, nem o destemor
Nem seria eu heroína ou mártir
Antes do peito cravejado de balas
Tenho medo da morte
Tenho medo da hora da dor na morte
Tenho medo de estar sozinha com uma criança
Que precise de minha coragem
Mas algo me diz que neste dia
Estarei ali, de corpo e alma.
Tenho medo de morrer
Mas queria morrer
Com o peito cravejado de balas
Com o peito cravejado de balas
Eu morreria, apesar do medo,
Se fosse preciso salvar uma criança
Se fosse preciso e eu tivesse coragem
Salvaria uma criança e morreria
Com o peito cravejado de balas
Se uma criança fosse ameaçada
Diante de mim eu veria a morte
E meu peito cravejado de balas
Não seria a coragem, nem o destemor
Nem seria eu heroína ou mártir
Antes do peito cravejado de balas
Tenho medo da morte
Tenho medo da hora da dor na morte
Tenho medo de estar sozinha com uma criança
Que precise de minha coragem
Mas algo me diz que neste dia
Estarei ali, de corpo e alma.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Permuta
Ganhar na loteria é fácil:
basta escolher os números.
E depois, aguardar em casa
o resultado e a lista de compras.
Achar um amor é fácil:
basta praticar, com insistência.
E depois, inscrever nas árvores
o desenho de sonhos propícios.
Perder um amor é impossível:
um amor depois de descoberto
faz a dança semelhante
das estrelas:
o brilho milagroso da passagem.
basta escolher os números.
E depois, aguardar em casa
o resultado e a lista de compras.
Achar um amor é fácil:
basta praticar, com insistência.
E depois, inscrever nas árvores
o desenho de sonhos propícios.
Perder um amor é impossível:
um amor depois de descoberto
faz a dança semelhante
das estrelas:
o brilho milagroso da passagem.
sábado, 24 de julho de 2010
Sábado
A chuva lá fora evita distrações.
Me escuta
E deixa teu coração em silêncio
O trânsito lá fora envenena as estradas
Me olha
E entrega teu abraço demorado
Os medos lá fora embaralham os pensamentos.
Me toca e
E permite esta dança dos gestos.
Me escuta
E deixa teu coração em silêncio
O trânsito lá fora envenena as estradas
Me olha
E entrega teu abraço demorado
Os medos lá fora embaralham os pensamentos.
Me toca e
E permite esta dança dos gestos.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Natimorto
O dia começa nas linhas regulares da vida.
Um verso apareceu, e partiu.
Escovei os dentes, sem querer me olhar no espelho
Estava feliz, ou simplesmente desperta, porque havia um verso
E agora o dia começa sem que o verso esteja aqui.
Um verso alojado, como uma nuvem ou bala
na cabeça matinal do que sou escritora.
Seria um verso claro e ritmado,
talvez como este:
E na rua esvaziada, os pedaços da notícia.
Eis aí um verso, como existem versos aos milhares,
mas não reconheço, não me serve.
A vida breve de um verso,
natimorto e celebrado.
Penso em Cabral, perdendo para sempre
"Se no telefone me falavas eu diria."
A mim seria negado,
um de meus versos preferidos.
Deito agora, fecho os olhos, tento retomar a viagem do sono.
Para outra vez ser provocada por um verso,
Perfeito e sonoro,
matéria de sonho, prenhe de um poema longo e contundente.
Mas o dia começa nas linhas regulares da vida
E o verso perdido, está bem guardado,
no esquecimento.
Um verso apareceu, e partiu.
Escovei os dentes, sem querer me olhar no espelho
Estava feliz, ou simplesmente desperta, porque havia um verso
E agora o dia começa sem que o verso esteja aqui.
Um verso alojado, como uma nuvem ou bala
na cabeça matinal do que sou escritora.
Seria um verso claro e ritmado,
talvez como este:
E na rua esvaziada, os pedaços da notícia.
Eis aí um verso, como existem versos aos milhares,
mas não reconheço, não me serve.
A vida breve de um verso,
natimorto e celebrado.
Penso em Cabral, perdendo para sempre
"Se no telefone me falavas eu diria."
A mim seria negado,
um de meus versos preferidos.
Deito agora, fecho os olhos, tento retomar a viagem do sono.
Para outra vez ser provocada por um verso,
Perfeito e sonoro,
matéria de sonho, prenhe de um poema longo e contundente.
Mas o dia começa nas linhas regulares da vida
E o verso perdido, está bem guardado,
no esquecimento.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Poesia matinal
Eu não sei desenhar
e nunca mais saberei.
Possuo um piano,
no centro
de uma sala enorme,
e ele está mudo.
Olho o piano,
como o analfabeto
toca um livro,
sem saber abri-lo.
Abro o piano,
como o analfabeto
passa as mãos sobre
as letras enfileiradas.
E se cala.
O piano no meio da sala enorme.
Eu não sei desenhar
e nunca mais saberei.
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