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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Distância

O que pesa
são os pensamentos, indomados.
Em velocidade,
as idéias acumuladas, imprensadas num espaço pequeno,
estudantes empilhados num quartinho.


O que salva
são os pensamentos, indistintos.
Em uníssono, 
a legião de bençãos para as novidades,
crianças descalças, no gramado.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Pote de margarina e a felicidade

Para meu companheiro imaginário, nas noites de total impaciência, ele, que desenha os mundos!


Só posso te explicar deste modo: te dou uma metáfora e você veste. Se servir, decifrou a mensagem. Eu represento a Rapunzel. Estou guardada nesta torre há milhares de anos. E os cabelos cresceram tanto que já atravessaram o Atlântico. Há a bruxa, que não é má. Ela é uma cientista e está fazendo uma experiência. Também acho que milhares de anos é tempo demais para testar uma hipótese. Seu fusquinha com a pintura gasta é o cavalo branco. Se eu demoro para sair na janela, me entenda. São milhares de anos e muitos cabelos. Dá trabalho aparecer com uma aparência razoável. Chego na janela, do alto da torre, e aceno. Estou pronta para o final do feitiço. Ou da experiência. E você pensa que vou desistir só porque tem outra princesa no banco da frente, com quem você vai ao cinema há vinte anos? Eu vivo num conto de fadas. Para mim só tem final feliz quando tudo acaba.

sábado, 7 de junho de 2008

Outro chão

A beleza não está neste brocado, passeando em silêncio pelo meu vestido. Acordarei amanhã e talvez tenha uma aparência indecisa. Sigamos a rota fabricada. A noite espalhando glórias. Há estradas demais. Nós já sabemos o que fazer na velocidade. Todos os nossos beijos desperdiçados. Todas as nossas músicas querendo viagens. Faz frio por aqui. Um vento teimoso me obriga a ouvir este desejo. Sair enquanto é noite, sair enquanto há tempo, seguir os cavalos dançarinos. Asas de metal, pedaços desencontrados de mapas, e as histórias que vamos trocar. Acenda a fogueira e me ouve: vou estender o lençol, pouso perfeito para as minhas histórias, pouso ajustado para teu corpo, terra que será a nossa casa.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Retórica

Fala comigo, outra vez. Escande as palavras. Fala mais uma vez e por detalhes, toda a viagem planejada. Enuncia, novamente, os portos de sua parada. Diga boca, pernas, mãos, ventre, seios, braços, língua, boca, boca, boca. E quando falar, olhe nos meus olhos, meus olhos como leme, meus olhos, olhos de sereias que cantam. Seja meu Ulisses e não deseje os braços da quimera distante e devassada. Ao longe, não há prazeres. Vamos festejar o alimento que temos agora. Lá fora, há apenas frio e luzes demais. Fala comigo. Declara em seu escândalo o teu desejo e receba a minha fúria.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Aniversário

Ontem, veio um choro incomodo e não havia colo. Desses choros que não tem abrigo. Meu amigo ao lado, conforto na sua amizade, não iria entender uma tristeza sem origens. Senti saudade dos amigos mortos, senti saudade dos filhos que não tive, do marido que perdi na guerra, da mãe e pai que nunca se amoldaram aos meus desejos infantis, saudade da grande amiga que deixei de amar, saudade de ser a pessoa mais importante de alguém escandaloso. A véspera do aniversario é uma travessia. Os ventos irados, as águas que dançam sem obediência nenhuma, marés de lembranças vãs. E eis que as horas se movimentam e erigem um dia novo, a me exigir que levante, cuide do corpo, ouça vozes de amigos distantes e sua memória. Acordo, me toco e sei que este é mais um dia e mais uma chance para a lição de ser eu mesma minha mãe, meu pai, meu homem e minhas alegrias.