Nasci humana e não sei caminhar sobre as águas. O vento tem um dicionário que desconheço. Seria melhor ter nascido peixe. Vida breve, olhos fixos, movimentos simples. Nasci humana e não posso encarar o sol. Gosto da idéia de nascer outra vez, animal leve, sem peso, que ao tocar a fiação das ruas, faça do gesto um rápido meio de transporte. Se eu tocar um fio, desmonta-se assim a ponte. E minhas mãos pressentem o abissal sem nome, o vazio que é ter nascido humana e sem guelras. Mesmo através do toque sobre finíssimas trilhas, qualquer descarga elétrica me derruba e vence. Nasci humana e agora é tarde.
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sábado, 6 de fevereiro de 2010
terça-feira, 25 de março de 2008
Dedicatória
O que escrevo não é o mural da escola. O que escrevo não lista suas necessidades. O que escrevo não prescreve remédios para sua covardia. O que escrevo não é uma prisão perpétua. O que escrevo não registra nascimento de pessoas fracas. O que escrevo não declara morte de anjos, estrelas, crianças ou sonhos. O que escrevo não declara-se apto para os serviços. O que escrevo não imita atas e protocolos. O que escrevo não está nos livros que ainda não li. O que escrevo não choro mais. O que escrevo não é carta em pedaços, na cama deste homem solitário. O que escrevo não é chantagem nem o perdão. O que escrevo me desconcerta. O que escrevo me fere. O que eu escrevo fica quieto. O que eu escrevo passa por mim e se instala.
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