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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NOITE FELIZ



INVENTARAM O NATAL. E A ÁRVORE CRESCEU NA MINHA MEMÓRIA. RARAS VEZES A ÁRVORE FOI GENEROSA NA FAMÍLIA POBRE ONDE NASCI. E A CRIANÇA QUE EU ERA APRENDEU A SER FAMINTA DE COISAS DISTANTES. 
O NATAL PODE SER DOLORIDO QUANDO UMA CRIANÇA NÃO TEM EXPLICAÇÕES SOBRE A FALTA. NENHUMA CRIANÇA PODE ENTENDER A ÁRVORE ALHEIA, REPLETA. MAS CRESCEMOS. E SE TUDO DÁ CERTO, ATENDEMOS OS PEDIDOS DAS CRIANÇAS NOVAS QUE CHEGAM. TODO NATAL, FICO PERTO DAS CRIANÇAS DE ÁRVORES QUIETAS. SE DOU UMA MIGALHA PARA A CRIANÇA QUE DESCONHEÇO, A QUE ME PEDE ALGO NA RUA, ESTA MIGALHA NÃO É NADA ALÉM DE UMA LEMBRANÇA DE QUE ESTOU ALI TAMBÉM, NA HISTÓRIA DA CRIANÇA QUE PEDE. EU, AGORA CRESCIDA, OLHO A CRIANÇA QUE FUI, E SONHO COM ÁRVORES DIÁRIAS.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Carta pra mim mesma enquanto o sono natural não vem, nem a coragem de dormir artificialmente.




O dia de hoje foi complicado. E isso trouxe uma tristeza profunda. Mas ainda assim, fui atrás das coisas possíveis de se fazer num dia em que a tristeza assume o comando. Fui atrás de um pronto atendimento para a virose. Depois da queimadura, chegou uma sinusite, que a médica localizou pelo raio-x. Fiquei feliz quando percebi na médica que me atendeu uma gentileza, rara. E vi nos outros funcionários, que se lembram de mim pela queimadura, já que estive diariamente por lá, para tratamento e curativos, vi nas atitudes deles uma simpatia e uma visível lembrança de mim como uma pessoa boa. Vi uma mulher com a perna engessada, dizendo para a enfermeira que teria que ter força para esperar muitas semanas de tratamento. E a enfermeira disse: "é melhor não contar, porque vai ter mesmo muita semana pela frente". E disse isso empurrando a cadeira de rodas com carinho, com cuidado. Como se acrescentasse, nestes gestos, à frase, a promessa de que seguiriam juntas, de que ela, a paciente, teria apoio na trajetória do tratamento. E me vi naquela mulher, mas em processo adiantado. O pior, com relação às minhas queimaduras, já passou. Mas não significa que o menos pior não me mobiliza. Porque vejo agora, agora posso ver, as minhas pernas diferentes, a pele marcada. E tenho medo de que elas fiquem feias. Mesmo sabendo que na hierarquia dos problemas, isso é um problema pequeno. Mas não é pequeno para mim agora. Mexe com minha vaidade. Mas sou capaz de imaginar os vestidos novos que vou comprar. Que terão de ser mais compridos. Consigo brincar com a idéia de que vou usar meias sensuais. E que posso inventar uma história bem romântica para as cicatrizes e quem sabe não apareça um homem especial, atraído pela história que vou criar.
Me sinto sozinha, neste quarto que é um pouco a cela dos últimos vinte dias. Mas dentro dele há tudo que faz parte do meu mundo: fotos, livros, papéis, a televisão onde posso ver filmes que gosto, gavetas com cartas, contas que já foram pagas, emails que eu imprimi porque me trazem mensagens especiais, restos de flores, um altarzinho ecumênico e um pouco da minha bagunça. Estou no meu quarto e ainda não tenho mobilidade para retornar à rotina.
O que dói, dói mais concentrado. O que me faz feliz, também. Quando recebo o café da manhã aqui neste quarto, trazido por mãos amigas, sei que tenho companhia, sei que não estou solitária. Minha mãe mora longe, minhas irmãs também. Minha família é pequena. Minha mãe não sabe bem como estar ao meu lado nestas horas. Talvez porque eu não saiba dizer: mãe, vem logo porque eu preciso de você. Sempre penso que minha mãe tem outras pessoas para atender e não gosto de preocupá-la, mas talvez seja um erro não deixar ela saber o quanto a sua presença faria diferença. Um café feito por ela, uma comidinha, um chamego, as graças que só ela sabe fazer.
Estou aqui no meu quarto, no domingo à noite, sozinha. Mas sei que há muita gente que pensa em mim e quer que tudo dê certo.
Peço perdão pelo egoísmo, mas hoje, neste domingo, quase esqueço que estas pessoas devem ter seus motivos de tristeza, aborrecimento, tédio, desesperança. Estou tristinha. Estou com pena de mim. Mas é só agora. Domingo à noite, vocês sabem,
é um momento em que até Deus começa a pensar no que vai fazer na segunda-feira.

domingo, 15 de março de 2009

Recado

Para Chorik, porque talvez ele me entenda!

A dor me deu a mão e disse: "quero passear contigo". E muito feliz no seu trabalho, me fez visitar cantos escuros. Parecia sincera, quando me trancou num quarto sozinha. Me disse para confiar, porque o tempo iria passar depressa. E a alegria viria resgatar-me. Entregou um protetor de ouvidos, uma venda para os olhos e um envelope, que deveria ser aberto depois que ela partisse. Eu estava curiosa para ler, mas ao mesmo tempo, tinha medo de ver e ouvir coisas desagradáveis. Então, tapei os ouvidos, cobri os olhos e dormi. Não sei por quanto tempo. E num dia qualquer de abril, abril que é o mês mais misterioso no calendário, algo me despertou. Não eram sons muito altos, não era um excesso de luz, não havia insetos nem ratos. De pé, desperta, li o que estava escrito naquele envelope. Abri a primeira porta que encontrei e fiquei admirada em ver os trajes festivos da alegria.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Amigo sempre!

Sempre que escrevi aqui, sempre, diariamente, ou várias vezes ao dia, tive a companhia explícita do mineirinho, meio cavalheiro, meio cafajeste, o RM.
Pela amizade e carinho, e pelas lições de humor e ética impecável,
desejo a ele, publicamente,
feliz dia da mulher.
Porque acredito que ele entende, mesmo, deste assunto.

Emergência

Sofrer na própria pele também é aula sobre a dor alheia. Posso me transportar, compassiva, para o lugar das fogueiras e das torturas. Lugar desconfortável. Não gosto de me fixar. Apenas tocar, de leve, a extensão imaginada da dor do outro. Sofrer na própria pele para ouvir melhor os lamentos estrangeiros.

O carro

A carta diz que você tem dois caminhos: ir para onde mandam ou escolher a sua própria rota. Parece simples, parece exato. Mas quando é possível, mesmo, seguir o caminho escolhido, sem interferências, sem sugestões, sem influências? O oráculo é um espelho divertido. Em linguagem cifrada, ordena que você mesma encontre a resposta. Ou reformule as perguntas.

domingo, 8 de março de 2009

Domingo e o sol lá fora

Há sol lá fora. E o sol virá novamente, outro dia. Posso confiar nisso. O sol me acompanha, mesmo que eu só possa estar com ele através da janela. Amanhã a pele me dirá outras novidades. A certeza do mesmo sol amanhã me faz confiar nas coisas que estão em movimento: a pele, o coração, os afetos. Em volta de uma pessoa que se fere, desenha-se o acompanhamento generoso e delicado dos amigos. O sol vem amanhã. E posso me alegrar, com essa certeza.

sábado, 7 de março de 2009

O mapa da pele

Ontem, durante o curativo, vi minha pele exposta. A queimadura alterou a imagem da minha pele.
E enquanto a enfermeira fazia todos os procedimentos, em algum momento que já era possível não temer a dor pela aplicação do curativo, pensei que a minha pele, na região maior da queimadura, era uma metáfora e uma lição explícitas: a vida queima, diariamente. E apesar disso, vivemos. Enquanto as feridas da queimadura no meu corpo vão sendo curadas, e cada parte do corpo que foi queimada tem um tempo específico, quase particular, de recuperação, meu ritmo de vida vai retornando ao normal. Mas não dá para voltar sem aproveitar este acontecimento. E ao mesmo tempo, o efeito dos insights e das epifanias vai passando. Já não tenho a mesma paciência e disposição interior para grandes reflexões. Meu corpo clama por movimento, preciso muito sair de casa de novo, quero outra vez enfrentar o trânsito horroroso, quero fazer compras, quero ver amigos, quero ir para a praia, quero dançar, quero me inscrever nas aulas de piano, quero voltar a cantar, quero viajar, quero a minha rotina de volta. Mas sei que tenho tudo que preciso agora: a rotina alterada já virou uma rotina. E nesta rotina tudo está funcionando. O corpo me pede paciência, me ensina isso, talvez: que viver é ter competência para reger essas contradições dentro de mim e fora de mim. A vida não é quieta, nem comportada, muito menos monótona. E enquanto partes da minha vida estão sarando das feridas, outras estão intactas, saudáveis, felizes. Enquanto o corpo sabe bem o que fazer neste momento, a cabeça briga com a situação e me agita.
A queimadura é uma aula. E tem horas que sou péssima aluna. Ansiosa pelo recreio!

quinta-feira, 5 de março de 2009

Fogo não metafórico arde mesmo!

Sinto falta de certos blogs. Fico preocupada quando algum amigo deixa de escrever num blog. Ou fico apenas curiosa. Não sou (nunca fui!) uma blogueira muito agitada, muito frequente. Tenho blog como espaço para escrita literária. Mas sempre houve um certo desejo de ter um blog mais aberto ao confessional, para compartilhar diariamente minhas vivências ou sensações. Sei que ainda não é o momento.
Acontece que no domingo de Carnaval, depois de horas na revisão do meu livro Fábulas Delicadas (que está com lançamento previsto para maio), saí do quarto para espairecer. Decidi jogar buraco com meus filhos e fui fazer café. E a chaleira de água fervendo caiu nas pernas e barriga. Estou, desde então, passando por um processo doloroso e delicado, com dores e desconforto. Faço curativos diários no Hospital Aliança e fazendo amizades com funcionários e médicos. Já me preparo para escrever uma Crônica Havaiana do mês de março com o título: "Humor no setor de queimados". Estou aprendendo, como escritora de uma coluna mensal de crônicas de humor, que é possível fazer humor sobre tudo mas que a pimenta nos olhos dos outros é que é refresco.
O que eu quero dizer hoje, especialmente para os amigos da Confraria, é que sinto falta de ter tempo (é difícil ter humor e resistência física para escrever, ainda) para conviver nos blogues, para conhecer blogues novos, para acompanhar os blogues de pessoas que conheço e tenho afeto.
Estou com saudades da Mara, da Pathy, da Lu, da Denise, da K, do G, do Comentarista, do Chorik, da Celine, do Almost, do RM, da Alice, do Nuno, da Amélie, e de tantas pessoas dos blogues que sigo e que me seguem.
Ontem, li um trecho do livro que gosto muito, de Rudiger Dahlke, A doença como símbolo.
Quando me queimei eu estava, aparentemente, super feliz e calma, junto com meus filhos. Segundo o Dahlke, queimar-se fisicamente, ainda que por acidente, pode ser interpretado como não ter coragem para expor ou lidar com o fogo interno. E fogo interno pode ser muita coisa boa como paixão, sexo, criatividade, talento, etc.
Tento dar algum sentido simbólico paras as queimaduras e tem um que me conforta: havia um fogo invisível me queimando e talvez eu precisasse desta queimadura para acessar.
O fogo da escrita. O fogo da decisão de ser escritora, decisão sem retorno, decisão que me transforma, com o livro publicado, em "autora". Me chamavam assim, quando fui na Editora Escrituras: "traga um cafezinho para a autora".
Ser escritora de blog não é ainda ser escritora, oficialmente, no Brasil. Não concordo com isso. Mas percebo como o tratamento que tenho recebido agora é mais nobilitador, é mais sofisticado, é mais profissional.
Mas escrever, para mim, veio antes do blog, veio antes do Fábulas Delicadas pronto para ser publicado. Vou lançar meu primeiro livro no mês das noivas. Talvez este fogo, dessa primeira vez, desse parto, desse casamento meu com minha vocação é que tenha se manifestado, simbolicamente, na água quente que queimou meu corpo e me forçou a ficar quieta, em casa, mais em contato com essa força que não posso negar: eu escrevo e isso é de fato meu destino.

Beijos no coração de todos...

(quem quiser ler as
CRônicas Havaianas apareça na www.verbo21.com.br - uma revista eletrõnica de literatura e cultura que eu adoro e da qual faço parte, com muita alegria!