Sinto falta de certos blogs. Fico preocupada quando algum amigo deixa de escrever num blog. Ou fico apenas curiosa. Não sou (nunca fui!) uma blogueira muito agitada, muito frequente. Tenho blog como espaço para escrita literária. Mas sempre houve um certo desejo de ter um blog mais aberto ao confessional, para compartilhar diariamente minhas vivências ou sensações. Sei que ainda não é o momento.
Acontece que no domingo de Carnaval, depois de horas na revisão do meu livro Fábulas Delicadas (que está com lançamento previsto para maio), saí do quarto para espairecer. Decidi jogar buraco com meus filhos e fui fazer café. E a chaleira de água fervendo caiu nas pernas e barriga. Estou, desde então, passando por um processo doloroso e delicado, com dores e desconforto. Faço curativos diários no Hospital Aliança e fazendo amizades com funcionários e médicos. Já me preparo para escrever uma Crônica Havaiana do mês de março com o título: "Humor no setor de queimados". Estou aprendendo, como escritora de uma coluna mensal de crônicas de humor, que é possível fazer humor sobre tudo mas que a pimenta nos olhos dos outros é que é refresco.
O que eu quero dizer hoje, especialmente para os amigos da Confraria, é que sinto falta de ter tempo (é difícil ter humor e resistência física para escrever, ainda) para conviver nos blogues, para conhecer blogues novos, para acompanhar os blogues de pessoas que conheço e tenho afeto.
Estou com saudades da Mara, da Pathy, da Lu, da Denise, da K, do G, do Comentarista, do Chorik, da Celine, do Almost, do RM, da Alice, do Nuno, da Amélie, e de tantas pessoas dos blogues que sigo e que me seguem.
Ontem, li um trecho do livro que gosto muito, de Rudiger Dahlke, A doença como símbolo.
Quando me queimei eu estava, aparentemente, super feliz e calma, junto com meus filhos. Segundo o Dahlke, queimar-se fisicamente, ainda que por acidente, pode ser interpretado como não ter coragem para expor ou lidar com o fogo interno. E fogo interno pode ser muita coisa boa como paixão, sexo, criatividade, talento, etc.
Tento dar algum sentido simbólico paras as queimaduras e tem um que me conforta: havia um fogo invisível me queimando e talvez eu precisasse desta queimadura para acessar.
O fogo da escrita. O fogo da decisão de ser escritora, decisão sem retorno, decisão que me transforma, com o livro publicado, em "autora". Me chamavam assim, quando fui na Editora Escrituras: "traga um cafezinho para a autora".
Ser escritora de blog não é ainda ser escritora, oficialmente, no Brasil. Não concordo com isso. Mas percebo como o tratamento que tenho recebido agora é mais nobilitador, é mais sofisticado, é mais profissional.
Mas escrever, para mim, veio antes do blog, veio antes do Fábulas Delicadas pronto para ser publicado. Vou lançar meu primeiro livro no mês das noivas. Talvez este fogo, dessa primeira vez, desse parto, desse casamento meu com minha vocação é que tenha se manifestado, simbolicamente, na água quente que queimou meu corpo e me forçou a ficar quieta, em casa, mais em contato com essa força que não posso negar: eu escrevo e isso é de fato meu destino.
Beijos no coração de todos...
(quem quiser ler as
CRônicas Havaianas apareça na www.verbo21.com.br - uma revista eletrõnica de literatura e cultura que eu adoro e da qual faço parte, com muita alegria!