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sábado, 14 de agosto de 2010
Ofício
O dono da dor sabe o quanto dói. O outro, compassivo, imagina que dói demais. O outro, vingativo, deseja que doa muito. O outro, indiferente, pensa que só nele existe dor. Ela nem conhece o dono. Não consulta o mapa antes de chegar. Se a dor existe, se tem alguma face, é uma face branca, olhos arregalados. A dor é uma face branda. Um corpo que apenas cumpre o seu trabalho. Sempre adequado, sempre justo. A dor nunca ataca alguém. A dor apenas realiza seu ofício. Sem tribunal, sem remorsos, sem salário. A dor é uma fada, muda, inocente. Cega, certamente. E sábia. Alma transparente, a dor caminha sobre as pedras de fogo. Baila sobre as pedras de fogo. A dor não se conhece. A dor não sabe de nada. O dono da dor pode gemer, gritar. A dor não ouve, não se compadece nem se orgulha. Tem uma tarefa, o dono da dor se contorce, até desmaia. O dono da dor morre. E é nesta hora que a dor sai para outra viagem.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Ossos
Chove tanto, tanto, que a chuva começa a se transformar numa coisa disforme e feia. Perde a plasticidade lírica, perde a acomodação dos sentidos, perde o tom romântico que atravessa as imagens, nas quais um casal feliz compartilha, sob as cobertas, risinhos e prazeres. Chove tanto que volto a ser triste, como sempre. Esqueci as janelas abertas, ou fiz isso de propósito, e o fato é que encontrei almofadas e tapetes molhados. A cachorra não pode sair para seu passeio habitual. Chove tanto que me falta ânimo para comprar pães novos. Em casa, ilhada pela insistência desse modo que o mundo tem em me chatear, retoco o esmalte vermelho das unhas e me preparo para ver a chuva do lado de fora.
segunda-feira, 24 de março de 2008
cinema mudo
Decerto era o delírio da agonia, meus olhos sem poder acreditar. Uns corpos espalhados pela casa. A casa ardendo em volta de um deserto de águas. Rastros de homens, botas truculentas, toda a louça em susto, um lustre balançando o medo. Cena escancarada, invasão impressa no choro já cansado. Mulheres que nunca mais. Crianças e fim de linha. O holocausto, o estupro, o riso desdentado do carcereiro. Livros em retirada. O último selo e um cofre para guardar os dias que virão.
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