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terça-feira, 21 de abril de 2009

Vida

Para Elaine Hazin

Quando chove muito, gosto de ficar em silêncio. Chuva que não pára é exatamente igual a uma pessoa que tem muito para dizer. E diz coisas que preciso ouvir. Então, preciso ficar quieta, me movimentar pouco e apurar os sentidos. Ouvir. Cessar em mim a vaidade e o escândalo. Deixar de ser quilha, ponta, frente, flecha. E me transformar em água pura. Água que é substância própria de ajuste e acordos. Enquanto esta chuva desaba e insiste, me preparo para ficar deitada, em silêncio, no meio de uma revolução pura.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Roseiral

Meu coração é uma rosa viva. Tem idade para despetalar e me desperta. Sou o pleno botão da rosa, em certas manhãs, na sua presença. A rosa viva é um bosque fechado, de onde ouço canções em outras línguas. Fadas indecisas trocam as peles e pintam o bosque de azuis variadíssimos. O bosque da rosa é meu coração, fechado quando você se ausenta. Tudo chove sem interrupções durante as viagens. Esta chuva circular faz do meu coração um charco. Meu coração está vivo e vira flor, quando a chuva abre as cortinas para sua chegada.

sábado, 21 de junho de 2008

Caixinha de verdes

Imaginar nosso passado como os limites retangulares deste apartamento. Nosso passado, restrito a uma planta baixa e definida. O apartamento tem um perimetro limitado e fixo. Exceto por uma catástrofe ou alguma provocação de ruína, dessas que trabalham devagar e sorrateiras, como a umidade, avanço dos ratos ou das traças, a não ser por isso tudo que pode destruir um apartamento, ele sempre mantém suas medidas e ângulos. Dentro do apartamento, sem floresta nem jardim nem parques, construir uma horta portátil. Nos limites de um retângulo, trazer terra, construindo outro mapa. Nesta porção de território, com o apoio de água e sementes, expor novas vidas ao sol, ainda que seja esta réstia diária, que chega através da janela ínfima. Acompanhar, diariamente, o surgimento tímido de um ensaio verde, um broto, a primeira roupa que esta semente veste. A semente ainda de olhos fechados, ainda se espreguiçando, estranhando a mágica de florescer neste mundo tão pequeno. Fazer assim, com nosso amor. Que resida, dentro do passado, confinado neste apartamento sem novidades, um mundo à parte e sob controle. Dia a dia, remexer, limpar, proteger, retirar as ervas daninhas, fazer um relatório detalhado de acontecimentos. Temperar e dosar a exposição ao sol, conversar com as pequenas manifestações das hortaliças, tratá-las como jóias. E ainda que sejam preciosas, não negociar sua venda, não tratá-las como mercadorias. Nosso amor, essa horta de crianças, nossa brincadeira de, sendo deuses, controlar os acontecimentos, para que não murchem nem ressequem nem agridam.

Exposição

Escrevi este texto em retribuição à pessoa, não identificada, que me enviou um buquê de rosas exuberantes, abrindo a manhã de sábado, com alegria e êxtase.



Um buquê enorme. Quase um desperdício, um exagero de rosas. Rosas convictas, rosas firmes nas cores brancas e vermelhas. Cores saborosas. Rosas para serem comidas. O entregador foi taxativo: não tenho autorização para revelar quem mandou entregá-las. Disse apenas que a senhoria saberia. Espalhei as rosas pelos cômodos da casa. Sala, quarto, cozinha. Pequenos grupos, de exuberante beleza. O mistério, era mais poderoso que a beleza delas. O mistério, tomou conta da presença majestosa das flores. Mistério desviando a atenção da beleza plural e suntuosa. O dia começou com a chegada destas flores e a certeza de que em algum lugar alguém sabe o caminho das minhas alegrias

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Achados e perdidos

Nós dois nos encontramos na feira. Vendedores gritando, apregoando seus produtos: amores vãos, amizades rápidas, paixões platônicas, amores impossíveis, amores risíveis, traições bem contadas, histórias de amor inesquecíveis. Você chegou e trazia olhos infantis, buscando novidades. Eu soltava suspiros de tédio e embalava uma desilusão detalhada. Demos os braços e saímos para um passeio. Fingimos um piquenique. Sentados sobre a grama macia, fizemos confidências desde a infância. Vi o seu álbum de fotografias e mostrei os cachos de cabelos do meu primeiro filho. Trocamos as lembrancas, comparamos dores, rimos do nosso ridículo. Chegou, de repente, um vendedor feroz. Ofereceu, por um preço módico, uma história mágica. O traslado gratuito para o porto, onde nos espera um barco, de velas brancas. E um tapete sem fim, de águas futuras.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Me chama de Alice

Só para ver você feliz, eu posso usar a melhor letra. Uma expressão caligráfica, meu coração traçado em linhas de desenho. Nankin e filigranas. A mágica de criar o mundo, dosando o uso de luz e sombra. Erigir uma floresta, guardadas maravilhas na clareira. Vamos ao piquenique. Faço o mundo parar e a floresta interditada para maiores. Só eu e você: nossas fotografias de infância. Quando você usava óculos. Quando eu colocava flores no cabelo. Quando você tocava violão. Quando eu dançava com a saia bem comprida. Eu sei que a felicidade não existe. Para mim, os moinhos são apenas os monstrengos disfarçados. Desses que trazem doenças, desses que cometem crimes, desses que não sofrem, desses que dão tiros e não sabem abraçar. Sem acreditar que a felicidade existe, posso escrever felicidade e criar em volta da palavra uma constelação de réplicas possíveis: pequenos gozos, instantes de efêmera leveza. Por você, eu ingresso nesta igreja da felicidade. Faço de conta. Imito um sorriso. Danço uma valsa. Não creio na felicidade. Mas posso forjá-la.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Floricultura

A metáfora gasta talvez diga pouco. Ou não tenha efeitos nem escândalos. Que fazer com idéias velhas e teimosas. Nossa amizade só pode ser nosso jardim comum. Proprietários, pais zelosos deste filho e seu futuro. Que seja assim, a alegoria se vestindo, que faz de nós jardineiros e traz para nossos dias flores viçosas e esperanças.