sábado, 21 de agosto de 2010

Esquadros

Nilson,

eu não sou desta cidade, sabia? De longe, até posso me disfarçar e fico parecida com a paisagem. Alguém me trouxe para cá, e depois partiu. Então, tive que levar a cidade para dentro da minha casa, tive de entender a cidade. Tive de explicar ao meu corpo como a cidade funciona. Tive de explicar ao meu coração como a cidade funciona. Eu não sou daqui. Tive amores. O amor nunca me abandona. Nem a melancolia. A melancolia não combina com esta cidade, alguns turistas podem dizer. Eu gosto de estar com vocês. Eu gosto de conhecer a sua poesia e gosto de ser amiga do que você escreve. Devagar, bem devagar, quase ao ponto de ficar estática, eu sinto medo das cidades. Os carros estão impacientes. Os meninos estão impacientes. Tudo custa alguma coisa e tudo é caro. O teatro é lindo mas lá fora um homem apita, bem alto na minha cabeça e me interpela: são sete reais e é preciso pagar antes do espetáculo. No cinema, eu quero sonhar mas a comedora de pipocas faz ruídos. Eu ouvi você entregando suas poesias, um outro livro chegando. Vou para as festas, quase todas, que me convidam, porque tenho medo que me esqueçam. E se me esquecerem, completamente, um dia, sentirei alguma dor de nunca ter existido? Os filhos cresceram, o cachorro está em outra casa, meus pais não me ouvem. O parque desta cidade está sempre em reformas. E eu quero passear no bosque desta cidade. Quero encontrar o bosque e dentro do bosque, quero a porta para outros mundos. Eu preciso inventar mundos, para me esconder das cidades que não me pertencem.

3 comentários:

Í.ta** disse...

inventar mundos a gente tenta pela escrita, não é?

achei lindo este teu escrito.
estas possibilidades de leituras de algo endereçado a alguém.

beijos.

Í.ta** disse...

inventar mundos a gente tenta pela escrita, não é?

achei lindo este teu escrito.
estas possibilidades de leituras de algo endereçado a alguém.

beijos.

Nilson disse...

Oi, Eliana,

envergonhado com o que podem acarretar essas minhas ausências da blogosfera, tanto tempo até ver essa sua linda carta-inventário de estranhamentos. Quero dizer que também vim de um outro lugar, um estrangeiro também, nesta cidade maníaca, como disse Rizério, mas, se procurar bem, uma cidade como todas, capaz de sentir o que sentimos e até nos levar mais fundo - cidade dos ritos, afinal. Podemos trocar figurinhas: te mostro o mapa que já fiz, e você idem. Os mapas intercambiáveis!