terça-feira, 17 de agosto de 2010

Envelope

Traçado o mapa,
eis instalados, simetricamente:
o deserto e a chuva.

Dicção de murmúrio,
para firmar o trato,
acordo de alternância ilusória.

Tal inimigos distantes,
a contragosto irmanados,
nós dois vivemos assim,
dias de veneno e noite de antídoto.

E diremos que é amor
a passagem
e a medida
da permanência das águas.


7 comentários:

Anônimo disse...

Simplesmente perfeito!

Eliana Mara de Freitas disse...

Anônimo, sabe, comentários sem assinatura fazem bem quando dizem coisa boa.
Então, adorei este comentário.
O fato é que tive a idéia, dirigindo de volta para casa, após uma reunião de trabalho. Estava preocupada com um dos filhos, que havia feito uma pequena cirurgia nos dentes. E o trânsito estava complicado.
Carro parado, uma certa ansiedade para chegar. E a imagem veio, como se fosse uma grande tela de cinema: um deserto (talvez mesmo de cinema, já que eu nunca vi o deserto) e chuva.
E queria fazer algo como um tratado, em linguagem poética, sobre deserto e chuva.
Não era bem esse texto que eu imaginava escrever. Mas foi este que saiu.

Um abraço

Noslen ed azuos disse...

ai ai! formidável, ainda mais lendo sua resposta ao anônimo...é bem legal falar com anônimos... temos muito de anônimos em nós... loucura de falar com o espelho rsrs.

saúde pro filho!

bjs
ns

Blog do Akira disse...

A cada vez mais perfeito! Ainda bem que este saiu assim. Saudade.

Eliana Mara de Freitas disse...

Nelson,

já disse em outro comentário que muitas vezes olhamos para o que nos falta e desprezamos, sem querer, o que temos. De vez em quando, reclamo para mim mesma dos que deixam de vir aqui, alguns que vieram antes. E esqueço dos que sempre estão comigo aqui. E estes que sempre estão, eu sei que são intensos, no modo como estão comigo.
E você me dá este presente.
E eu só peço para você ficar!
Sempre. até anônimo, se precisar!

Beijos

Eliana Mara de Freitas disse...

Akira,

tua poesia me ensina uma parte que ainda ensaio escrever: sobre nossa vida de periferia. Ter sido do MPA é sempre ter sido, onde quer que eu vá.
E vejo com clareza que lá, naqueles anos agitados, em que eu era feita de deslumbramento vendo você e os outros construírem uma história, da qual eu fazia parte, foi lá que eu comecei a ver poesia e arte em tudo.
E hoje, estou construindo esta volta. Para tudo que seja poesia e arte, e também para tudo que diga o que é ser/viver periferia.

Beijos, carinho e saudades...

Blog do Akira disse...

Li
Voce faz poesia maior e eu cometo algumas machadadas, sem falsa modéstia.
Um abraço do Akira.