domingo, 4 de julho de 2010

Estudo sobre morangos

Enciclopédia de vermelhos. Nenhum morango é órfão. Filiado a uma vegetação rasteira, família numerosa que lhe tolhe a significância, todo morango é um ser geminado. Genealogia de idênticos. Exposta a pele, pele cheia de humanidade, desenhada em poros visíveis, eriçados, em pontilhismo impecável. Na sua arquitetura, o que vem primeiro, tempo presente de sua carne mais recente, é a juventude da paixão. Na base, que o sustenta por um triz, uma espécie de saia a lhe cobrir a data de nascimento, aí onde a carne é branca e tímida, onde o sabor não existe ainda. No morango, uma viagem certa em direção a doçura que os sentidos lêem devagar. Há morangos crentes na lição generosa, que se entregam para uma festa. Outros, menos humorados, entregam uma sensação ríspida, que faz a mandíbula reagir, em leve movimento de rejeição. Mas a promessa dessa docuça leve atrai, para deixar que lá no ápice, uma língua curiosa explore a ponta delicada onde o sabor está concentrado. Neste fruto disposto para dentes ávidos, a paixão grita, delicada e satisfeita. É preciso ter uma mordida mínima para engolir este fruto, pendente como um brinco, menor do que a boca que o devora. Fruto breve, excelência quase imperceptível, quando alcança a plenitude de seu vermelho e seu açúcar. Vida precária, nesta conversa rápida entre o pleno frescor e o apodrecimento.

5 comentários:

Mauro disse...

Lembrei do Caio Fernando Abreu, porque alguns morangos, antes de apodrecerem, mofam.

Chorik disse...

Esse é um dos meus preferidos. Reedite todo ano. Texto delicioso para se degustar com muitos sentidos.

Eliana Mara de Freitas disse...

Mauro, pois é, o Caio inspira qualquer fala sobre morangos mofados.

Eliana Mara de Freitas disse...

Chorik, meu amigo,

eu tenho pensado nesta amizade finíssima que você e mais uma meia dúzia da confraria me entregam, desde 2007.
Hoje tive um pesadelo e vim aqui escrever. Poderia ter escrito e guardado, como fazem os escritores quando querem lapidar, impressionar posteriormente.
Mas aqui o que faço é escrever quando sinto vontade de escrever aqui. E aqui talvez seja a resposta para escrever para meia dúzia de pessoas com quem posso contar, quando na madrugada, um pesadelo toma conta da minha alegria.

Beta disse...

Muito bom!