sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Leveza

Esta postagem corre o risco de ser editada, consertada, apagada. É um dos raros momentos em que me exponho, fora da proteção da ficção. Raras vezes vim aqui escrever sobre minha vida. Escrevo muitas vezes textos que estão ligados ao que me acontece mas sempre filtrados pela ficção. Uma vez ou outra, amigos me ligam ou mandam email, preocupados, quando o tom do texto parece meio triste, meio deprê. Chorik fica sempre de olho, e me procura quando um sinal de alerta aparece. Roney faz isso também. Hoje meu dia foi marcado para sempre, pela companhia da lembrança de Mara. Porque hoje é meu aniversário (por isso hesitei em escrever agora!) e falar sobre a Mara só pode estar misturado com os momentos felizes que tive hoje. Porque a Mara foi embora hoje, para um lugar mais distante, fora do nosso alcance. Então, pensei que escrever poderia ser considerado algo vaidoso. Mas existe, sim, vaidade em escrever num blog, existe sempre um desejo de exibição. E sei que a Mara entenderia, me faria ver que não importa a opinião dos outros. Se é pra escrever com vaidade, escreva assim mesmo, nem dê bola! Isso eu acho que ela me diria. Falei com a Ana Paula e ela me disse que gostaria que eu escrevesse algo. Talvez o texto bonito que a Ana Paula espere não seja esse. Esse é o texto escrito no impulso, sem pensar, sem tomar cuidado com as palavras, sem olhar melhor para evitar erros. A Mara morreu hoje, fisicamente falando. Sempre dizemos que a pessoa ficará viva na memória e etc. E nem sempre temos memória suficiente para lembrar das pessoas que se foram, do jeito que elas merecem. Mas é incrível, nunca esqueço a Carol, do Saudades de um punhal. E com a Carol minha amizade era recente e só via blogs (porque nunca estive com ela pessoalmente). De algum modo, sempre me lembro dela. Por que lembrar da Carol é lembrar que esta vida que temos na blogosfera é vida mesmo, com todos os riscos, com todas as falhas, com todas as emoções disponíveis. E isso não dá para saber sem estar aqui. E que "aqui" é esse, que nem sempre tocamos? Que espaço é esse que ocupamos, esse espaço virtual? Não sei. Não sei mesmo. Mas a morte de duas amigas de blog, em menos de tres anos, na comunidade pequena em que me movo, eu que sou uma blogueira relapsa, que tenho pouco tempo para estar aqui, essas mortes mexem comigo, de um modo que ainda não consigo expressar. E no mínimo me afetam porque nunca vi Carol nem Mara, e elas fazem parte da minha vida e da minha memória.
Com a Mara foi diferente da Carol, porque de fato convivemos durante quase tres anos, com frequencia (ainda que com certa irregularidade). E acompanhamos brigas e amores dos outros, e trocamos emails, e prometemos nos encontrar para um café em São Paulo. Ela não pôde ir ao lançamento do Fábulas, mas sei que planejava fazê-lo. Sempre quis conhecer a Mara, e especialmente porque me pareceu, sempre, que ela seria uma pessoa no mínimo confortável! E ainda mais, sei que seria um encontro cheio de riso, conversa, confissões e carinho. A Mara escolheu um nome para o seu blog que descrevia o que ela era na blogosfera: leve e solta! E pelo que dizem quem a conheceu pessoalmente, ela era melhor ainda pessoalmente. A Mara morreu hoje e hoje é o dia do meu aniversário. Então, por uma questão muito óbvia, ela vai estar mesmo na minha memória, mais marcada do que outras pessoas, porque a associação agora está grifada, em negrito! E sempre terei este presente garantido: de a cada ano em que faço um balanço pessoal do que vivi e do que quero viver, terei a companhia da presença iluminada dela. Sempre me cutucando, alegremente, me dizendo, marota: - Olha, não complica a vida, não! Aproveita tudo que der pra aproveitar! Não guarde mágoas, não queira entender tudo, perdoe mesmo as pessoas, na verdade, nem leve tão a sério assim as desilusões! Vai em frente."
Para mim é difícil ser leve e solta. Sou mais complicada, sou mais encucada, sou mais melancólica mesmo! Mas tenho meus momentos! Gosto da leveza, gosto de tudo que seja mais leve e mais solto. Isso tudo é minha aprendizagem na vida.
Hoje tive que me dividir entre a tristeza pela saída da Mara deste palco e a alegria da minha continuação, apoiada por uma rede amorosa de amigos e familiares. Então, é isso que eu compartilho com ela: nos encontramos neste ponto, de saber que a vida que temos é a única apresentação. Não dá mesmo tempo de ensaiar. Fazer o melhor da nossa temporada talvez seja a única resposta possível.
Eu gosto da Mara. Gosto de saber que ela faz parte da minha vida. E que me deu a honra de sair de cena, no dia do meu aniversário, deixando que eu participasse da festa e da alegria. Sem ciúme, sem drama, sem peso. Esta é Mara que eu conheço e que está no meu coração: leve, solta e generosa.

8 comentários:

Mr. Almost disse...

Pois é... E generosa.

K. | Incompletudes disse...

Também escrevi. Também no impulso. Mas, sem medo porque SEI que ela iria gostar. Ela adorava quando eu falava dela no blog. E, agora, mais ainda, não é hora de esquecer, mas, de lembrar.

Foi tão bom ler seu texto!
Estou destruida com a partida da Mara, mas, agora feliz pelo seu aniversário.

A coisa mais díficil que tive escrever EM TODA A MINHA VIDA foi a frase para a coroa de flores, que mandei em nome de todos os amigos blogueiros que ela tanto alegrou. Nunca oito palavras foram tão massacrantes. Eu, que sou compulsiva em escrever, fiquei impotente diante de oito palavras. Mas, fiz. E espero que de certa forma represente o carinho de todos dessa blogsfera.

(e eu sou covarde! Não consigo vê-la num caixão) :(

beijos, obrigado por escrever.

Chorik disse...

Não apague não. Você bem sabe, as palavras tem uma força depois de lançadas. Essas vão bater carinhosamente em Mara. Na verdade, vim para te dar um abraço. Mais sinceramente ainda, vim para ganhar um abraço. Estamos todos precisando.
Bj

Daniela Sampaio disse...

Foi como a secular frase ''agora você vê/ agora não vê mais''
Como admitir que uma alma tão especial foi-se embora, se ainda a sentimos tão incandescente ao lado dos nossos corpos?
Aconteceu. Acontece. Acontecerá.
Sempre.
Irão como se nunca tivessem ido.

Ludmila Rohr disse...

Minha querida...te acompanho de longe e ao mesmo tempo de tão perto...

Um beijo pelo aniversário...um abraço quente a acolhedor, por sua perda.

bjo

monica.nardo disse...

Boa tarde, amiga blogueira da Maroca

Meus parabéns pelo seu aniversário

Fiquei muito feliz ( e me derreti em lágrimas ) lendo as mensagens de vocês para ela.
Se ela puder nos ler/ouvir, estará sorrindo, tenho certeza.
Você tem razão, quando diz que ela era leve, solta e solidária.
Ela era mesmo assim, e deixou em nós um pouco desse jeito de ser muito particular.
Peço a vocè que associe a partida da Mara ao seu aniversário de forma positiva; acredito que a passagem seja difícil, mas a nova vida será uma festa...
Um abraço,
Mônica

Patty Diphusa disse...

Oi querida

Feliz aniversário !

Espero que possamos sempre fazer festas nele e lembrar, com bastante alegria, da Mara.

E cada vez fico mais contente de já ter te encontrado e quero mais...

bjs

Nilson disse...

Oi, Eliana, primeiro parabéns atrasado pelo aniversário. Rodando por aí, fico fora uns dias da blogosfera. E queria dizer que é isso mesmo: existimos no blog sim, e é tocante e verdadeiro o teu depoimento sobre Mara. Sinto por ela. E te mando um abraço!