quinta-feira, 9 de julho de 2009

Outro café

O café envergonhado, na xícara. Café sem uso. A colher pequena, na dança nervosa das mãos frias. O ultraje e o silêncio. Palitos quebrados. Saleiro fora do lugar. Bolinhas feitas com guardanapo. Um barquinho feito de péssima dobradura. Ele aguardaria mais. Vai pedir a nota fiscal para registrar exatamente três horas de atraso. Ela tem crises de riso nervoso, quando ele joga a nota fiscal onde está registrado seu atraso de três horas. Ele está nervoso, e não acha graça no riso que ela exibe. Pensa em quebrar todos os seus dentes. Pensa em jogar todas as xícaras no chão, e ordenar que ela pise, descalça e nua. Ele está em péssimo estado. Mas, de repente, ela chora. E assim, chorando, deita na cama desarrumada. E assim, desajeitada, pega um travesseiro e agarrada ao travesseiro, chora sem fazer barulho. Até que ele, sem motivo nenhum para rir, desiste de quebrar os dentes, desiste de cortar o rosto dela, com a navalha, desiste de amarrar os pés e as mãos e esquece a fita adesiva com que cobriria todas as mentiras. Olha para ela, desmanchada em choro quieto, e não pensa na morte, não pensa na dor, não quer mais o prazer de seus gemidos lancinantes. Agora, ele larga a mochila, tira respeitosamente os sapatos, se aproxima da cama, cobre aquele corpo pequeno e pensa que seria muito bom tomar um café bem quente.

11 comentários:

ana k. disse...

bonito!

Eliana Mara Chiossi disse...

Ana, pode ser que seja bonito, mas acho mais bonito teu Esmalte:

esmalte
Visto detalhes de vermelho: Disfarce para esta pálida alma. Pequenos detalhes que me salvem, assim sem escândalo de um vermelho inteiro.


( e estou tentando comentar no seu espaço e não consigo...)...

Cortazar mandou dizer que está só esperando...

Anônimo disse...

Definitivamente, te amo neguinha!

rm disse...

Caraca, bravo o gajo, heim? rss

Só por causa de 3 horas de atraso? Já vi que não é usuário do SUS...

Eliana Mara Chiossi disse...

Roneizinho,
vc diz isso porque não conhece ela...

O cara até que demorou pra perder a paciência...

Mr. Almost disse...

Olá, Eliana!

Muito café deixa as pessoas nervosas. Esse sujeito tá precisando é de um "chá"!

Beijos!

Andréia M. G. disse...

Que bom que a produção por aqui continua! Bj

Lidi disse...

Lindo, Eliana. Adorei.
Um beijo.

Noslen ed azuos disse...

é uma fúria tão grande que esconde o amor, este que nos deixa louco...

bjin
ns

Eliana Mara Chiossi disse...

Nsinho, na ficção gosto de desenhar esta fúria. O amor, pra mim, tem este gosto. Mas o amor não é isso. Sempre vem o acompanhamento do ciúme, da desmedida, dos enganos infinitos em que nos envolvemos.
Aparece... Sempre bom quando vc aparece para um café...
Bjins

hijak skank disse...

"Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa de sua feiura. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo."


Leite Derramado - Chico Buarque