sábado, 7 de março de 2009

O mapa da pele

Ontem, durante o curativo, vi minha pele exposta. A queimadura alterou a imagem da minha pele.
E enquanto a enfermeira fazia todos os procedimentos, em algum momento que já era possível não temer a dor pela aplicação do curativo, pensei que a minha pele, na região maior da queimadura, era uma metáfora e uma lição explícitas: a vida queima, diariamente. E apesar disso, vivemos. Enquanto as feridas da queimadura no meu corpo vão sendo curadas, e cada parte do corpo que foi queimada tem um tempo específico, quase particular, de recuperação, meu ritmo de vida vai retornando ao normal. Mas não dá para voltar sem aproveitar este acontecimento. E ao mesmo tempo, o efeito dos insights e das epifanias vai passando. Já não tenho a mesma paciência e disposição interior para grandes reflexões. Meu corpo clama por movimento, preciso muito sair de casa de novo, quero outra vez enfrentar o trânsito horroroso, quero fazer compras, quero ver amigos, quero ir para a praia, quero dançar, quero me inscrever nas aulas de piano, quero voltar a cantar, quero viajar, quero a minha rotina de volta. Mas sei que tenho tudo que preciso agora: a rotina alterada já virou uma rotina. E nesta rotina tudo está funcionando. O corpo me pede paciência, me ensina isso, talvez: que viver é ter competência para reger essas contradições dentro de mim e fora de mim. A vida não é quieta, nem comportada, muito menos monótona. E enquanto partes da minha vida estão sarando das feridas, outras estão intactas, saudáveis, felizes. Enquanto o corpo sabe bem o que fazer neste momento, a cabeça briga com a situação e me agita.
A queimadura é uma aula. E tem horas que sou péssima aluna. Ansiosa pelo recreio!

3 comentários:

Calila das Mercês disse...

Muito legal seu texto!!
Nossa é a pura verdade...

Eu também sou ansiosa nata, e é preciso repensar mesmo a cerca das nossas vidas e de como ela seria se fóssemos sempre iguais.
Certas mudanças são necessárias para obtermos reflexões...
E a queimadura na pele ensina mesmo...

Eu passei por momentos assim quando me acidentei de moto e fiquei com um ferimento horroroso na perna direita. Ficou feio sabe!
E só um dia tive convicção que tinha vergonha daquela cicatriz...
Mas ela está aqui e pude aprender muito com ela que me acompanhará pro resto da vida!

Saudações

Ludmila Rohr disse...

Minha querida...paciência...
existe o tempo certo para a pele nova ficar pronta para a vida...apenas respire e tenha paciencia..
bjo

leve solto disse...

Eliana querida, desculpe por eu não ter passado aqui antes pra uma visita...

Não sabia do acontecido.

Espero que tudo passe logo!

beijos e muito mimo pra vc

Mara