quinta-feira, 12 de março de 2009

Escrita e dor alheia

Quem acompanha este blog sabe que, em Maio textos retirados daqui estarão compondo o meu primeiro livro, Fábulas Delicadas, que será publicado pela Editora Escrituras, de São Paulo. É meu primeiro livro publicado, mas não meu primeiro livro. Em 2006, um livro de contos, ainda inédito, Mil folhas e uma, ficou entre os selecionados do concurso nacional SESC/RECORD. Um dos contos desse livro, Morango e chocolate na chuva, já foi publicado no jornal A Tarde, aqui de Salvador. Muitas pessoas que leram ficaram sensibilizadas e vieram falar comigo, pois acharam que eu tinha passado pela experiência da personagem, já que o conto está escrito em primeira pessoa e fala da perda de um filho adolescente. Tenho um filho de 19 anos, que está muito bem de saúde. Mas o que me provocou essa postagem é que eu queria compartilhar algo que é complicado para mim, enquanto escritora da dor alheia. Como escritora, muitas vezes chego perto de dores muito pesadas, que eu talvez não suportaria se as vivesse. Penso no livro que virou roteiro, Crash, e fico pensando que também quem faz cinema se aproxima, talvez perto demais, de dores alheias e dores terríveis. E ninguém escolhe ser escritor, eu acho. É apenas uma confissão o que digo, não é uma opinião ou expressão de alguma teoria que acompanho. Escrever chega como imposição para a maioria dos escritores. E acho que comigo não tem sido diferente. E tenho medo das imagens e memórias que absorvo, que ouço, que vejo, imagens de dor que outras pessoas vivem. Também sei escrever com humor, e é o que tenho feito, mensalmente, na coluna que mantenho, na revista eletrônica Verbo21. As Crônicas Havaianas são escritas com humor e certo escracho também. Eu aprendi a rir de tudo, desde que comecei a escrever lá. Escrever sobre a felicidade, sobre o gozo, sobre o amor, sobre a esperança, não acho difícil. Escrever sobre a dor que é minha, minhas dores conhecidas, não acho difícil. Mas tenho medo e nem sempre posso suportar a força com que as dores dos outros pedem passagem pela minha cabeça e exigem que eu escreva sobre elas.

10 comentários:

Barbara disse...

Por mais que eu me distancie, no fundo, não creio na "dor dos outros" ou na "minha dor".
Somos capazes sim de lidar com essa visitante implacável, sendo na nossa casa ou na dos outros.
Nem linha tênue há.
Por ex., a única dor que eu não suportaria seria a de toda mãe - perder um filho. Qdo acontece c/ os outros, o meu medo me faz sentir, até a nível físico, dor.
Medo é um demônio sutil e ao mesmo tempo , uma montanha que nem sempre queremos, mas escalamos.

Eduardo P.L disse...

Eliana,

qual o problema que encontrou para se inscrever na TERTULIA VIRTUAL?
Basta ir à Central de Relacionamento:
http://tervirtual.blogspot.com/
Colocar no Mister Linky´s seu nome e link completo. E postar seu DESEJO dia 15. Se for viajar no fim de semana, poste já!

Bjs

Qualquer outra duvida, pergunte!

Bjs

Noslen ed azuos disse...

Acho que a maturidade é muito importante na hora de escrever certos temas, acho eu.

Bjin
ns

Pierre C. Cortes disse...

Eliana,
Parabéns pelos escritos e pelo livro que irá lançar.
Escrever é uma arte.
Penso que falar das nossas dores, derrotas e perdas é muito duro. A dor do outro, se sentida intensamente, é também dolorosa demais, mas o mais importante é falar sim, não somente das alegrias, mas daquilo que a vida também tem: dor, desilusão, decepção, perda.
Isso machuca, dói e nos faz crescer.
Lembro-me, que há tempos atrás, fiz um trabalho voluntário e ouvia pessoas com diversos problemas.
Era impressionante a forma como o sentimento de amor, compaixão e ajuda ao outro nos unia através de uma simples linha telefônica.
E escrever sobre isso é também estar com o outro.
Viva a vida.
Beijos.

Chorik disse...

Empatia. Nem todos têm a capacidade ou o hábito de se colocar na posição do outro. Ando sem tempo, mas aguardo ansioso o livro. Nem que seja para sofrer com ele.

Maria disse...

Vida(...),
não para de passar.
enorme loucura,
festivais sujeitos a serem reais.

Cora disse...

Um contraponto em forma de poesia para refletir (gosto de ler o autor):

Pedra

Não celebro as dores
as que laceram o corpo
as que dilareceram a alma
Miro-me no exemplo das pedras
que nunca se queixam
dos ventos
do sal
do sol
que lhes abrem feridas
e as deixam sangrando
sílica
eternamente
Celebrar a dor
é maldizer a vida

Bosco Sobreira

Aqui: http://blog.boscosobreira.com

Ludmila Rohr disse...

Minha querida,

A dor do outro tem uma função belíssima de dar limite a nossa própria dor!
Fico feliz com o parto do livro em maio!
Te vejo na quinta no Círculo das Deusas!?
bjo

Eliana Mara Chiossi disse...

Cora, apesar de você ser a pessoa mais ficcional da confraria, gosto muito de você. O poema que você deixou, bonito enquanto poema, não me responde a uma das inquietações: mas se a dor faz parte da vida, deixar de celebrá-la, de honrá-la, não seria deixar de celebrar uma parte da vida? Não tenho a resposta. Só fiquei pensando. Tive dois partos. O parto normal é um tipo de dor, o parto cesariana é outro. Mas são duas lembranças de dor que eu celebro, porque ao meu lado estavam meus filhos, chegando e me tornando outra pessoa.
Não acho que a postura de vitimização seja boa. Ou de procurar dor onde não tem. Mas o que me intriga é que, estar me assumindo como escritora é também reconhecer alguns impasses das pessoas que escrevem. Eu saí do filme "A lista de Shindler" chorando e chorei por muito tempo depois. Eu e minha amiga, que foi comigo. E fico imaginando quem escreveu o roteiro... Tendo que dar uma estrutura narrativa eficiente para contar mais uma faceta do Holocausto.



Lud,

concordo plenamente com você. E ter feito terapia em grupo por um tempo me ajudou a perceber isso mais ainda.
Quando eu tive meu pequeno incidente doméstico, com a queimadura, só pensava que apesar de tudo era melhor que tivesse sido comigo e não com os filhos e com os netos. E agora, me sinto mais compassiva com a experiência de pessoas queimadas.

E Bárbara, você diz algo que eu acredito: nem linha tênue há.


Chorik e Pierre, dois visitantes charmosos e gentis, sempre, é por aí, pra mim: empatia.


Maria, gratíssima pela visita e pelo seu texto.


Lud, estarei lá, com certeza. Sei que vai ser um bom momento de começar o círculo das deusas.

Maria Muadiê disse...

Eliana, eu tenho muitos medos.