quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Carimbo de uma idéia falsa

Sempre narrar o amor como trânsito, permuta ou troca. Eu olho pela janela de cada apartamento de mil prédios imaginários. E vejo o amor sozinho. Vejo o amor sem asas. Ferimentos por todo o corpo. Uns pés inchados de caminhar em areia quente. O amor perdeu o agasalho e a noite é fria. Ninguém veio trazer sopa quente para o amor no inverno. Saiu o amor pelas ruas sem filtro solar e agora tem queimaduras pelo corpo todo. Ao atravessar a rua, o amor não olhou à direita e o ônibus nem teve tempo de frear. E o amor recebeu cobertura de jornais e um par de velas. Entra no avião e o avião cai. Decide fazer greve e descontam os dias parados. Sai o amor em peregrinação e tem início uma guerra santa. Quando o amor pede a palavra, a multidão vê um disco voador. O amor guardou dinheiro embaixo do colchão antes das águas invadirem a casa. Perdeu o dinheiro, perdeu a perna, está paraplégico e nem tem convênio de saúde. O amor foi demitido. O amor tem uns bolsos rasgados. O amor rasga dinheiro. O amor perdeu a memória. O amor é gago. O amor tem mau hálito. O amor está rouco. O amor foi embora deste mundo na véspera do apocalipse.

3 comentários:

rm disse...

Já tinha desistido de comentar, faltou reciprocidade. Mas não posso deixar passar batido um lindo texto como esse.

Como falsa? Quer ver as marcas que tenho, devidamente carimbadas?

"E no entanto ele se move", querida (d)escritora de sentimentos.

Eliana Mara disse...

Você por aqui é uma provocação fina, para a escrita e alguns mergulhos. Estou em tempos de investigação, busca obsessiva de entender o que é o amor em mim, ainda que eu use o amor nos outros para ver, para desentender, para ficar perplexa.
Gosto sempre da tua presença nos blogues, sinto tua leitura atenta, sagaz.
Volte sempre.
Beijos

rm disse...

Eliana,

desconfio que você não tenha a exata dimensão do prazer que proporciona aos seus leitores, com sua escrita fina, delicada e precisa.

Seu comentário me fez lembrar, ao invés de Galileu, Noel: "Quem acha vive se perdendo..."

E não é que estar perdido seja necessariamente ruim?