domingo, 16 de dezembro de 2007

Os graus em mim, de Clarice

Digo isso e não tenho medo do que vão dizer. Em geral, tenho receio da opinião alheia. A opinião alheia me machuca, se for feita de pedras. A opinião alheia me deixa incrédula, se for boa demais. Sou desconfiada de que a opinião alheia é sempre um grande mal. E o pior de tudo é que a opinião alheia está comigo, ainda que eu esteja só. Digo, então, que sou Clarice, de novo. Sou a reedição de Clarice, em tempos modernos. Vejo as fotos de Clarice e digo: esta sou eu. Este olhar perdido, de quem nunca foi desse mundo. Essa sensualidade envergonhada, essa mulher que desejava o mundo e gostava de comida caseira. Tímida e espalhafatosa, como descreve a imagem de Caetano. Gosto mais de falar da morte. O silêncio imperial sobre a morte, bandeiras desfraldadas de esquecimento, faz a morte ter uma atitude que não é dela. Nós a obrigamos a ser feia, uma fera pronta para o ataque. Eu quero a morte como uma placa de advertência. O farol vermelho me avisa para parar e se todos obedecemos, os automóveis passam, e o pedestre também terá sua passagem livre. A morte é esta placa. Estatísticas dão uma idéia de número. Faço as contas. Chamo a morte e fazemos cálculos. Ela ri e me diz que vai passar aqui, com certeza. E que prefere me encontrar bem vivida. Eu sou Clarice e quero ter minhas horas de estrela.

Um comentário:

andréa.mascarenhas disse...

Tua ficção fica fantástica nessas cores, tons e possibilidades!!!
Bj, querida