quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Luto imaginado

Isso será algo típico de mulheres? O quadro fixo do nosso imaginário enquanto aguardamos os telefonemas, a memória das datas memoráveis, que veja nosso novo corte de cabelo, que observe o vestido novo. Criaram Penélope e ela até hoje se apresenta, recortada na cena matriz: tecendo, tecendo, tecendo. Eu proponho outro enquadramento. Eu a vejo distraída, sonolenta, quase querendo esquecer. Na seqüencia de uma Penélope humanizada, seu desejo é descer, sair do quarto, largar aquela colcha estúpida e o ardil programado para agradar ao Ulisses, viajando a negócios.
A minha Penélope, sonhada, larga os tecidos, desce e se farta, à mesa, brindando à vida, junto com os pretendentes. Manda os empregados trazerem os melhores vinhos enquanto faz charadas, propõe desafios, mobiliza jogos para que os melhores sejam escolhidos e compartilhem seus lençóis. Penélope dá as costas ao marido desatento, sempre apresentando desculpas heróicas para sua ausência e descuido: muitas guerras, mares congestionados, comércio exterior e relações internacionais.
Penélope solta as tranças, libera os cabelos e decide o que será oferecido no café da manhã dos dois homens selecionados, que lhe garantiram o prazer da noite passada.
Ah, sobre o cachorro: deu uns ossos e uns gritos e o colocou para dormir no quintal.

3 comentários:

hugo disse...

cara eliana,

deixo o meu mail para que possa enviar questões associadas ao seu desafio/frustração.

khuggo@gmail.com

participar depende só disso.

hugo

Maria Velho disse...

Eliana

Magnífica metamorfose dessa sua Penélope...eu identifico-me mais com a que larga o pano e parte em busca do outro ou outros...
quanto ao desafio eu alinho...veja no meu perfil o meu e.mail...

Besitos

Állex Leilla disse...

Eliana: retribuindo sua visita, tambéme stive por aqui fuçando impressões, textualidades e insights. Respondendo à tua pergunta: os meus dois primeiros livros de contos estão esgotados, na Diadorim tem o romance, "Henrique", uma antologia de contos chamada "Outras moradas", com dois contos meus, uma antologia de poesia, com 5 poemas meus e o "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira", da record, que tem um conto meu. Beijos, volte lá sempre, eu voltarei aqui também!