domingo, 6 de maio de 2007

Parece estranho, mas onde, afinal, está o local profundo de tudo? Estando em contato com algo profundo, não temos jamais a perspectiva da profundidade, mas sempre, e talvez, apenas, para sempre, tudo que tocamos nos é dado a entender pela superfície. Se você chega ao fundo do poço, sabe que é o fundo porque seus pés tocam uma superfície limite. A profundidade do poço, sua curvatura e desempenho, só existe para os sentidos: aquilo que é visto na ilusão de ótica entre vazio e preenchimento. O poço pode ser explorado pelas palmas. Mãos cuidadosas a examinar a ilusória verticalidade de algo que é apenas superfície emborcada. A única qualidade de uma profundeza é sua extensão vertical, que pode ser travestida de drama. Na forma de abismo ou prédio alto a testemunhar a queda de um corpo que desistiu. Na superfície, sim, reinam mil e uma histórias, atributos, comportamentos e variações.

12 comentários:

sandro ornellas disse...

Sei, não, Eliana. Um abismo não é drama, mas tragédia. A não ser que esse pensamento se dê à beira do abismo... mas o sentimento trágico está profundamente imerso na vivência dos abismos e superfícies, sem necessariamente pensar sobre eles. Nesse caso, há sempre o risco da vertigem, da loucura e da morte. Sei como é esse limite, ao mesmo tempo desejado e temido. Foda...

Eliana Mara disse...

Sandro, dos simuladores:

sonhei hoje que eu era um par de pessoas: eu e um homem destemido. Nós sabíamos que o fim estava próximos (coisas de sonhos: um ou outro era doente terminal) e muitas cenas desconexas depois esse homem, meio anjos de win wender, me levava colada a seu corpo em coreografias radicais, de saltos e mergulhos de alturas que cessam a respiração, que cortam o fio de um momento a seguir.
Vejo uma cavalgada alinhada que se aproxima, ruidosa: estou descobrindo a solidão imensa. E dessa vez, já não sinto amor nem dor. Já não sinto nada. Me veio a imagem prática de que o final do abismo pode dar uma solução prática a essa ingrata e insustentável vida humana: se algo em mim encontrar a paz, vai ser assim: respira uma última vez e deita na superfície. A dor ficará para os verticais. Nós já estaremos planos, como folhas.

Eliana Mara disse...

Escrevi isso tudo talvez porque hoje seja meu primeiro aniversário como avó. E ainda não arranjei a fantasia dessas festas. Vem o dia das mães e todas essas funções são funções que não me iludiram. Tive madrastas, e madrastas são mais comuns do que as mães podem aceitar.

Eliana Mara disse...

Melhor dizendo, Sandro,

quanto custa uma simulação de vôo para um país de férias?

Alba disse...

Querido Sandro e querida Mara, vocês viajaram nas profundezas do poço e dos pensamentos, mas como se pode pensar com clareza estando assim, nas profundezas, com tantas preocupações para sair dele....hahahaha...brincaderinha à parte, achei realmente profundo e interessante o que vc. escreveu Mara Maravilha...e só não vou tecer alguns omentários para aprofundar mais porque, mainha, eu tô com muita preguiça. Bem, aquele cafezinho poderá ser agendado quando vc. quiser, ou será melhor uma cerveja...quero falar com vc. sobre aquele curso que vc. dá. beijinhos, Alba.

SANDRO ORNELLAS disse...

Aprendi recentemente duas definições: dissimular é fingir não ser algo que se é (ou seja, acredita-se, nesse caso, ser algo anterior e originário, apenas temporariamente oculto); simular é fingir ser algo que não se é (ou seja, não se acredita ser nada sob a máscara que se enverga). Quanto custa uma simulação de vôo? Quanto vc estiver disposta a pagar. Sua imaginação, seu corpo, sua integridade ou apenas um blog na internet. Cabe a vc decidir: simular ser avó e mãe ou dissimular não sê-las. A vida é insustentável, sim, mas é a única que temos para aprender a simular (ou dissimular, depende do freguês). Traduzindo em miúdos, ligar o botão do foda-se. Estou tentando aprender a ser leviano, isto é, simulado...
Beijo

Luiz de Aquino disse...

...e então surgem-me mil perguntas, a busca inútil e eterna das definições indecisas, como pensar, sentir, fingir, viver.
O que vale mesmo, Eliana, é escrever. Para mim, é esta a coerência, já que tudo o mais é discutível.
Beijos!
Luiz de Aquino

Eliana Mara disse...

Sandro, um blog na internet é sempre um blog na internet. e um blog na internet, para mim, é basicamente, dissimulação de identidade e simulação pública de escrita.

Eliana Mara disse...

Aquino, neste espaço novo que estou habitando há pouquíssimo tempo, fico com você: o que importa para mim é escrever. E a escrita fica sendo, afinal, a minha forma de estar viva. Não sei viver sem isso. E hoje não me iludo mais querendo que as pessoas leiam, escrevam, leiam, escrevam. É a mim que a escrita toca. É em mim que as leituras repercutem.
Se eu não falar nada sobre isso tudo, estarei ainda, e sempre, vivendo isso: ler, respirar, respirar, ler, escrever, respirar, ler, perder o fôlego, respirar, ler, escrever e os infinitos.
Beijos no coração.

SANDRO ORNELLAS disse...

Sandro quer mais...!!!!

maricelma da disse...

Eliana,vou deixar aqui um trecho de um poema da Adélia Prado que penso se adequar aos comentários ao lado: " Alguns Deus quer doentes outros - escrevendo!" Vida longa para a sua iniciativa! Ser saúdavel sempre! Abraço

PALAVRAS&POESIAS disse...

Eliana vim retribuir a visita, aceitei o convite. Gostei do blog, fiz minha inscrição, no mundo e nos teus textos.
Abraço meu.