sexta-feira, 25 de maio de 2007

Cheguei até a porta da casa, ao mesmo tempo em que a chuva virou duzentas águas. Chacoalhei o casaco marrom e me livrei do guarda-chuva imenso. Foi assim que troquei de caminho e deixei aquelas águas boquiabertas. Eu, vestida de índia, coreografando afetos digeridos, evoquei a frente fria, depois de ter proferido, na seqüência exata, as palavras sagradas: viagem, dilúvio, seda branca, sol poente, luminária. E agora a chuva é um desperdício. A outra mulher, resguardada nos limites, da sala coberta pelo tapete verde, vê da janela a fuga da chuva. Uma chuva que foge de mim, dos meus poderes de instalar universos ao rumor de passos indecisos. Cada um terá um dia sua chuva particular. Cada um dos que puderem acreditar nos ancestrais: aqueles que souberam sempre parar o corpo para receber a justa medida de granizo, que são as chuvas magoadas.

(este pedacinho de texto está aqui a pedidos de Maricelma)

5 comentários:

maricelma da disse...

Além da chuva, eu também fiquei boquiaberta! Diante da chuva de imagens descritas nessa postagem. Outro dia ouvi a Elisa Lucinda dizer que só admira palavras que exerçam seu significado. Que pesem seu valor na hora de seu emprego. E falou breve (bem rápido) e eternamente (bem devagar). O texto que comento é assim: cumpridor de todos os efeitos, sinônimos...é quase um mosaico pluvial. Visto de fora e revisto de dentro de qualquer janela arranhada pelas águas.

Joel disse...

não sei por causo de que lembrei de uma frase de Aureliano Buendia: Está chovendo em Macondo!! Gosto muito dessa frase...e esse texto chuviscou em mim, mais que chuvisco, chuva mesmo!

maricelma da disse...

Joel, eu não te conheço, mas gostei de encontrar aqui alguém que gosta dos Buendía! Muito bem colocado esse trecho!

Eliana Mara disse...

Joel,

declaro aqui meu amor pelo seu modo de ser poeta. E declaro aqui minha alegria pelas suas visitas, nesta casa muito engraçada, que precisa de poucas chaves. Eu me sinto assim mesmo, alimentada, quando você vem, lê e deixa um recado na geladeira. Sempre é bom saber que você existe e sei disso.

Eliana Mara disse...

Joel e Maricelma,
o que me espanta, ainda, é que não tenho músculos para a poesia, assim a poesia nascida com esse disntintivo. E eu mesma me surpreendo com alguns momentos de lirismo. Não sei como mas a última frase, a métafora do granizo, eu escrevi sem saber quem estava escrevendo. Vi o pensamento tomar forma naquelas palavras. E é uma imagem que eu amaria se não a tivesse escrito e quase não sei como esse presente chegou.
Parece que é assim: viver dessas pequenas delícias que valem mil palavras desperdiçadas no ônibus ou nos departamentos: essas pérolas que quando escrevemos (você e Mari, poetas, eu sei) desembarcam sem que estívessemos esperando.
Voltem para o chocolate quente e umas notas quente de Mozart.