sábado, 14 de agosto de 2010

Ofício

O dono da dor sabe o quanto dói. O outro, compassivo, imagina que dói demais. O outro, vingativo, deseja que doa muito. O outro, indiferente, pensa que só nele existe dor. Ela nem conhece o dono. Não consulta o mapa antes de chegar. Se a dor existe, se tem alguma face, é uma face branca, olhos arregalados. A dor é uma face branda. Um corpo que apenas cumpre o seu trabalho. Sempre adequado, sempre justo. A dor nunca ataca alguém. A dor apenas realiza seu ofício. Sem tribunal, sem remorsos, sem salário. A dor é uma fada, muda, inocente. Cega, certamente. E sábia. Alma transparente, a dor caminha sobre as pedras de fogo. Baila sobre as pedras de fogo. A dor não se conhece. A dor não sabe de nada. O dono da dor pode gemer, gritar. A dor não ouve, não se compadece nem se orgulha. Tem uma tarefa, o dono da dor se contorce, até desmaia. O dono da dor morre. E é nesta hora que a dor sai para outra viagem.

5 comentários:

Chorik disse...

A dor bem que podia tirar umas férias.

Nilson disse...

Quase um tratado sobre a dor. E ela, sabe de si???

Maria Muadiê disse...

massa!

Chorik disse...

Eliana, aposto que você acha graça do Miguel, não é mesmo? Eu acharia. O que só o incentiva a continuar com a mania. Zezé também vive falando Ninguém merece. Mas ela fala de mim.

Moniz Fiappo disse...

Que texto pertinente, a dor existe e às vezes mata mesmo. Gostei demais e peço permissão para reproduzir no meu blog. Posso?