sábado, 18 de julho de 2009

Estudo sobre morangos

Enciclopédia de vermelhos. Nenhum morango é órfão. Filiado a uma vegetação rasteira, família numerosa que lhe tolhe a significância, todo morango é um ser geminado. Genealogia de idênticos. Exposta a pele, pele cheia de humanidade, desenhada em poros visíveis, eriçados, em pontilhismo impecável. Na sua arquitetura, o que vem primeiro, tempo presente de sua carne mais recente, é a juventude da paixão. Na base, que o sustenta por um triz, uma espécie de saia a lhe cobrir a data de nascimento, aí onde a carne é branca e tímida, onde o sabor não existe ainda. No morango, uma viagem certa em direção a doçura que os sentidos lêem devagar. Há morangos crentes na lição generosa, que se entregam para uma festa. Outros, menos humorados, entregam uma sensação ríspida, que faz a mandíbula reagir, em leve movimento de rejeição. Mas a promessa dessa docuça leve atrai, para deixar que lá no ápice, uma língua curiosa explore a ponta delicada onde o sabor está concentrado. Neste fruto disposto para dentes ávidos, a paixão grita, delicada e satisfeita. É preciso ter uma mordida mínima para engolir este fruto, pendente como um brinco, menor do que a boca que o devora. Fruto breve, excelência quase imperceptível, quando alcança a plenitude de seu vermelho e seu açúcar. Vida precária, nesta conversa rápida entre o pleno frescor e o apodrecimento.

4 comentários:

Andréia M. G. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Andréia M. G. disse...

Oi, Eliana! Incrível como você conseguiu dar um sabor a mais aos morangos. Maravilhoso o seu "exercício frutal". Bj

Lidi disse...

"Vida precária, nesta conversa rápida entre o pleno frescor e o apodrecimento." Adorei! Que sensibilidade em falar de morangos! Beijo, Eliana!

rm disse...

Esse texto tá bom pra chuchu...

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