segunda-feira, 16 de março de 2009

Carta pra mim mesma enquanto o sono natural não vem, nem a coragem de dormir artificialmente.




O dia de hoje foi complicado. E isso trouxe uma tristeza profunda. Mas ainda assim, fui atrás das coisas possíveis de se fazer num dia em que a tristeza assume o comando. Fui atrás de um pronto atendimento para a virose. Depois da queimadura, chegou uma sinusite, que a médica localizou pelo raio-x. Fiquei feliz quando percebi na médica que me atendeu uma gentileza, rara. E vi nos outros funcionários, que se lembram de mim pela queimadura, já que estive diariamente por lá, para tratamento e curativos, vi nas atitudes deles uma simpatia e uma visível lembrança de mim como uma pessoa boa. Vi uma mulher com a perna engessada, dizendo para a enfermeira que teria que ter força para esperar muitas semanas de tratamento. E a enfermeira disse: "é melhor não contar, porque vai ter mesmo muita semana pela frente". E disse isso empurrando a cadeira de rodas com carinho, com cuidado. Como se acrescentasse, nestes gestos, à frase, a promessa de que seguiriam juntas, de que ela, a paciente, teria apoio na trajetória do tratamento. E me vi naquela mulher, mas em processo adiantado. O pior, com relação às minhas queimaduras, já passou. Mas não significa que o menos pior não me mobiliza. Porque vejo agora, agora posso ver, as minhas pernas diferentes, a pele marcada. E tenho medo de que elas fiquem feias. Mesmo sabendo que na hierarquia dos problemas, isso é um problema pequeno. Mas não é pequeno para mim agora. Mexe com minha vaidade. Mas sou capaz de imaginar os vestidos novos que vou comprar. Que terão de ser mais compridos. Consigo brincar com a idéia de que vou usar meias sensuais. E que posso inventar uma história bem romântica para as cicatrizes e quem sabe não apareça um homem especial, atraído pela história que vou criar.
Me sinto sozinha, neste quarto que é um pouco a cela dos últimos vinte dias. Mas dentro dele há tudo que faz parte do meu mundo: fotos, livros, papéis, a televisão onde posso ver filmes que gosto, gavetas com cartas, contas que já foram pagas, emails que eu imprimi porque me trazem mensagens especiais, restos de flores, um altarzinho ecumênico e um pouco da minha bagunça. Estou no meu quarto e ainda não tenho mobilidade para retornar à rotina.
O que dói, dói mais concentrado. O que me faz feliz, também. Quando recebo o café da manhã aqui neste quarto, trazido por mãos amigas, sei que tenho companhia, sei que não estou solitária. Minha mãe mora longe, minhas irmãs também. Minha família é pequena. Minha mãe não sabe bem como estar ao meu lado nestas horas. Talvez porque eu não saiba dizer: mãe, vem logo porque eu preciso de você. Sempre penso que minha mãe tem outras pessoas para atender e não gosto de preocupá-la, mas talvez seja um erro não deixar ela saber o quanto a sua presença faria diferença. Um café feito por ela, uma comidinha, um chamego, as graças que só ela sabe fazer.
Estou aqui no meu quarto, no domingo à noite, sozinha. Mas sei que há muita gente que pensa em mim e quer que tudo dê certo.
Peço perdão pelo egoísmo, mas hoje, neste domingo, quase esqueço que estas pessoas devem ter seus motivos de tristeza, aborrecimento, tédio, desesperança. Estou tristinha. Estou com pena de mim. Mas é só agora. Domingo à noite, vocês sabem,
é um momento em que até Deus começa a pensar no que vai fazer na segunda-feira.

9 comentários:

Calila das Mercês disse...

Eu também me sinto assim, às vezes, com pena de mim! Mas passa.. logo, logo estou bm, sorrindo! E ainda bem que o domingo já passou.

Espero que esteja bem!

Beijão

Anônimo disse...

nesta hora...saindo já da gripe!!! Pensava em vc...e na sua voz me dizendo: "eu gosto tanto de você que até prefiro esconder..." Portanto....sózinha, nem pensar..e esse banzo do domingo afeta 99% da população, confesso que faço parte dos 1% que se livraram desta roda cármica chamada "Efeito lá vem a segunda de novo"....resumindo....estou com vc...full time agora! Pode chorar....

rm disse...

Ei baianinha,
mas essa coisa de mandar carta pra si mesmo, tem pelo menos uma vantagem: a certeza de que chegará ao destinatário... rss

Eliana Mara Chiossi disse...

RM, meu lindinho,
tem outras duas certezas:
não gasto nada com despesas de envio.
e sei que a carta será lida...rsrs


Bj

Noslen ed azuos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
A garota do copo d'gua disse...

querida tive que bloquear meu blog por motivos maiores, mas adoro seus textos e gostaria que vc continuasse sendo minha leitora!
mande seu email para lu_tinoco@hotmail.com para que eu possa desbloquear seu acesso! ;)

sempre bom vir aqui, belo texto...

boa semana!
=* beijos amelisticos!

Noslen ed azuos disse...

Estes domingos de pensamentos, de saudades e tormentos; o meu de ontem também, mas só foi eu dormir no final do domingo para ter um sonho bom de acordar feliz sem saber o porquê, espero que aconteça com você.

(fiz uma revisão aqui em casa com mais calma ( tinha feito na rua o comentário), mas mesmo assim ficou meio estranho este comentário, sei lá...)

Bjin
ns

RosanaK disse...

Os domingos são realmente difíceis, ainda mais qnd estamos sozinhas e passando por alguma dificuldade!!!
Me identifiquei muito com o que vc escreveu...
Beijus e fique bem!

LÍVIA NATÁLIA disse...

Engraçado como vc, falando de si, se irmana com tantas de nós.

Um beijo!