sexta-feira, 23 de maio de 2008

Colcha

A melodia é um transporte fácil. As músicas da paixão funcionam como um alucinógeno fraterno. Eu dou início, desde os primeiros raios, ao ensaio da alegria. O sol desenha um borrão, que mal identifico após o sonho. O sonho bom é um incômodo. Faz a realidade desastrada. Sonhei você, sonhei a casa, sonhei o quadro visto da janela. Imagens velhas de cozinha antiga e café sendo preparado. Imagens desejadas, de orvalho polvilhado sobre o tapete verde da folhagem. Sonhei recortes óbvios das propagandas, quando o trem nos leva até os arredores de Paris, na primavera. Os sonhos me deixam cansada. Toda semana verifico a loteria e fortaleço a lição da perda. É tão fácil perder. É tão fácil perder o que fomos. É tão simples desistir da felicidade que quase conquistamos. É tão fácil a embriaguez da noite nos bares, nas boates, nas rodas quentes de amigos rápidos e roupas escolhidas para mentir. A loteria me trouxe você. Era um bilhete premiado. E agora, somos apenas duas pessoas cansadas. Que conferem diariamente a perda. E que fazem uma maquiagem caprichada. Usando cremes para evitar o grito das rugas. Usando roupas iguais aos dos filhos, para preencher o medo. Enquanto isso, eu sonho. E em algumas noites, sou uma senhora velha, com os cabelos grisalhos, descendo pelas espáduas, em duas tranças. Uma índia, uma autóctone, uma pessoa feliz, compartilhando com você o silêncio dos premiados.

Um comentário:

Celine disse...

Como sempre, perfeito!

O tempo como melhor amigo, tem que ser.

Flor, beijos.