segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Ponto final

Trancada no quarto, sem destino, perdida numa dor sem origens. A frase voltava, sem obediência, sem modos. Nem a festa do Natal, com a família reunida, nem o adiantamento de um dinheiro que daria o direito à esperada viagem. Olhos postos na mala semi-pronta. Olha para as roupas íntimas, escolhidas para os sonhos. Antes, ao olhar para elas, tinha malícia, calor, era vida. Agora, uma das outras marcas de sua figura patética. No espelho, vê batom, lápis, base: tudo escorre e deforma. O rosto de um palhaço pobre, sem público, aparando com uma panela velha a água que escorre dos buracos da lona. A cena cômica quando deu a ele as passagens. O olhar, novo, arma branca. Um calor repentino, sangue escorrendo e dor nenhuma. As passagens voltam para minhas mãos. Olho para frente e não vejo mais nada. Sei que ele partiu. O ronco do carro. Minha mãe inútil. Meu pai e seu vexame. Subo as escadas, tropeço no salto, odeio tudo que sou. Agora estou entre as duas distorções do espelho. Bem longe eu ouço sons de vida, lá fora. Seria a voz de minha mãe? Preciso dormir.

5 comentários:

António Almeida disse...

Olá Eliana

gostei de receber a sua visita no meu blog.
Tenho passado por aqui desde então mas a "correria" do dia a dia não tem dado para muito mais.
Eliana gostei bastante do seu "post" de hoje como também gostei de muito do que já li escrito por si.
Literatura sempre, cinema nos últimos tempos está mais complicado por falta de tempo...mas sim adoro cinema e "livros", costumam dizer que eu "como" livros...e sabem-me muito bem.
Maratonas por enquanto é só um desejo muito forte, vou-me ficando pela metade (meia-maratona) mas em 2008 talvez me aventure.
Bem por hoje acho que já estou a exagerar,espero continuar a ter a sua visita, conte ter-me por aqui.

Eliana Mara disse...

Imagino que somos todos palhaços de nós. Tanto quanto respiramos. A vida é sim um picadeiro onde nem sempre o "respeitável público" compreende o que estamos dizendo nem fazendo. Só não percebem que, sem excessão, TODOS são palhaços de si mesmos o que torna a vida um espetáculo dentro de outro espetáculo, um show anódino por falta de perspicácia... como num mundo sem espelhos."

Geralo, que me enviou por email porque eu, usuaria leiga, nao sabia como permitir comentários para quem não tivesse conta do Google. Acho que já consertei isso)

Anônimo disse...

"Imagino que somos todos palhaços de nós. Tanto quanto respiramos. A vida é sim um picadeiro onde nem sempre o "respeitável público" compreende o que estamos dizendo nem fazendo. Só não percebem que, sem excessão, TODOS são palhaços de si mesmos o que torna a vida um espetáculo dentro de outro espetáculo, um show anódino por falta de perspicácia... como num mundo sem espelhos."

http://sobretudodelona.wordpress.com

Anônimo disse...

e eu sem querer, publiquei denovo
Geraldo

Eliana Mara disse...

Fique por aqui, várias vezes, mesmo sem querer. Eu gosto muito das suas visitas.