quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Texto de meu amigo Nuno Ribeiro


nem saúde nem sustento

É fácil pensar que a única solução é ter um emprego, sujeitarmo-nos às condições que ali encontrarmos e irmo-nos aguentando, mesmo se sobra pouco tempo e pouco dinheiro para viver, depois do tempo que se gasta a trabalhar e do dinheiro que se gasta para sobreviver. Difícil, pelo menos para mim, é imaginar outra forma de viver. É fácil fantasiar sobre ter uma quinta, sobreviver com o que a terra dá, ser autónomo e livre. Difícil, pelo menos para mim, é sair da segurança estagnada para o relento da liberdade.

Porque faço a pergunta a mim próprio, muitas vezes, "afinal, porque continuo, porque me sujeito a isto, todos os dias da semana?", pergunto-me porque continuam as outras pessoas, porque se sujeitam todos os dias as pessoas a uma escravidão suave, em que recebem dinheiro e não são chicoteadas, mas em que tudo está feito para a sua subjugação, tudo conspira para manter as pessoas com rédea curta, obedientes e acéfalas. Porque me sujeito eu, porque nos sujeitamos nós?

Não é suficiente a resposta mais óbvia e sensata: porque não nos podemos dar ao luxo de ficar sem emprego e sem sustento. Não é suficiente. Há-de haver qualquer coisa nas entranhas, no profundo da nossa psique, algures dentro de nós, algum impulso para a procura de felicidade e bem-estar. Não quero aceitar que tenhamos tão grande, que eu tenha tão grande, capacidade para fazer da insatisfação um ofício e do engolir de raiva uma arte. Não quero acreditar que não haja uma criança, um rebelde, um sonhador, algo de luminoso e exigente, dentro do que somos, que esteja disposto ao risco de ser feliz - muito mais do que à garantia de infelicidade.

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