terça-feira, 6 de setembro de 2011

Montagem 2

Um cego quer saber o que é uma rosa.
Começo a buscar um caminho para descrever uma rosa, ainda não vista, antes que o cego possa tocá-la.
Entrego em suas mãos uma pedra. 
Para explicar a rosa por contraste.
Se o vento toca a pedra ela desce. 
A rosa, que é feita de partes, em partes, voa, ao toque do vento.
Então, diferente da pedra, a rosa é pura abertura.
Se a vemos fechada, no início, botão ainda, isso é truque para enganar pessoas apressadas. 
Véspera da festa generosa, em que todos os portões serão abertos. 
O cego revira a pedra nas mãos, aperta, testa a sua superfície e textura. 
A rosa não se entrega assim, uníssona. 
E ao tocar todo seu conjunto, o cego saberá que a beleza da rosa está protegida. E este conjunto é uma metáfora: a dama que não pode ser alcançada antes da superação. Caule com espinhos, obstáculos para testar os motivos. 
Para que chegar ao cerne da rosa, se não for para admirar e, depois, compartilhar?
Mas como chegar ao cerne da rosa sem desmontá-la, sem entender que no final, a rosa é seu próprio vazio?
Dizer ao cego que a rosa é uma beleza de pedaços. Uma beleza montada. Entregar a rosa desmontada,
retalhos de veludo, regularidade nas formas, cada pétala tão semelhante. 
Sem aceitar a insignificância aparente deste conjunto espalhado, não há como entender a beleza da rosa inteira.  

4 comentários:

Chorik disse...

Complexo esse esfacelamento da rosa para compreendê-la. Eu, desmontado, talvez faça mais sentido...

Eliana Mara Chiossi disse...

Gostei muito do seu comentário, e imagino como seria fazer um exercício, autorizado, para desmontar você... Teria que ser com muito humor...
(já me passam bobagens pela cabeça!).
Mas é um exercício mesmo.
Estou querendo retomar uma prática de escrita baseada em acento da descrição.
Não é fácil.
Tem imagens que me atraem mais que outras.
Árvores e folhas, por exemplo.

Beijinhos,

André da Silva Aguiar. disse...

Lindo essa metafora cheia de reflexão, muito lindo, parabéns!

Tenorio disse...

É uma metáfora tão bela que
se eu fosse cego eu teria chorado.