segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ressaca

Ela me acompanhou até a borda. Lentamente, joguei todas as coisas estimadas e tão inúteis. As fotos, as roupinhas, tantos cadernos, livros, objetos sem função, toda a bagagem, tudo que guardei e que já não teria utilidade. Ver o amontoado de objetos, espalhados e fora de ordem aumentou ainda mais a urgência. Saímos lentamente, falando pouco e falando baixo. Poucas palavras porque o acordo era tão exato e tão correto. O banho foi demorado. A camisola era branca e bordada finamente. Quis manter os pés descalços. Não era preciso agora mais nada. Cabelos arrumados, na beirada prateada. Deitei, lentamente de bruços. Pedi alguns minutos para lembrar de algo que fosse bom. Escolhi uma cena apenas. Uma cena inventada e por isso, perfeita para ser a última. Disse adeus. E a lâmina desceu rápida e precisa. Vi minha cabeça pender para um lado e vi o sangue vivo jorrando e formando um rio. Vi minhas asas em movimento e respirei aliviada. Sempre soube que morrer seria a melhor parte da vida.

Um comentário:

Manoel Magalhães disse...

Bárbaro o seu texto, guria. Parabéns!!!!