terça-feira, 3 de maio de 2011

Eu, amanhã

Cai um dente e todos os fios de cabelo. Os ossos partem, esfarelam e a coluna é uma corcova ridícula. Remela no olho, catarro, demência, cheiro fétido, nenhuma importância, nada a dizer, nada a receber. Ninguém precisa mais da sua presença. Ao contrário, o melhor seria que você morresse antes do Campeonato Nacional, para liberar as viagens e comemorações. E você insiste, com este corpo inválido, estas pernas finas, o catarro, a tosse indecente, um ronco que nem é humano. Ontem, talvez faça algum tempo, mas ontem, você era uma mãe aguardada, uma avó que despertava saudades, uma mulher que alguns homens desejavam. Agora, o asilo, a rua, o vento, o deserto, o vale dos velhos. Tudo, menos você circulando, suja e senil pela sala tão bem decorada. Envergonhando as visitas.

4 comentários:

Gil Cardoso disse...

Não sei porque mas deu uma dor em ler ...

Blog do Akira disse...

"Moça feliz
medrosa e
sonhadora"

E então o seu poema virou canção nas mãos de Raberuan. Já iniciamos a parte de estúdio, quando ficar pronta encaminho para voce.

Beijo, Akira.

Lidi disse...

Nossa, Eliana, que verdade dolorosa...

Saulo Moreira disse...

Cheiro forte.