sábado, 23 de abril de 2011

Páscoa

Lavei as pedras. Todas as pedras que encontrei dentro de casa. E como se fossem tecidos, coloquei de molho, e aguardei. A sujeira que há nas pedras é história. E vi as pedras enfeitando jardins. Vi as pedras num calçamento antigo, no dia de um desfile. Vi Jesus, inocente, cansado de tanta santidade, com as mãos doendo de tantos pregos, recebendo pedras na cabeça, pedras no olho, pedras no joelho. Vi a prostituta recebendo pedradas até morrer, implorando por um enterro justo. Vi as pedras rolando, em movimento conjunto, pura avalanche. Lavei as pedras e fiquei um tempo sem fim, olhando todas elas, enfileiradas na borda do tanque de um apartamento comum. As pedras pré-fabricadas, as pedras vendidas por quilo, as pedras da moda. As pedras do meu coração, dançando sobre meus músculos cansados de amar e não entender. As pedras da minha paixão, exaustas de desejar. Se eu fosse uma pedra, que histórias eu contaria para a mulher, que, como eu, toca as pedras querendo ouvi-las?

2 comentários:

karina rabinovitz disse...

também lavei as minhas! aliás, estão de molho desde ontem!

Eliana Mara Chiossi disse...

Karina,


hoje acordei e as pedras limpas me olharam, com olhar cínico.