terça-feira, 19 de abril de 2011

Existe uma escrita feminina em mim?

Como professora doutora de Literatura Brasileira, eu devo responder com um pensamento ensaístico e bem elaborado, sobre este tema. Apoiada em pressupostos teóricos e críticos e atualizada quanto ao "estado da literatura" sobre o tema.
Mas hoje, especialmente, aqui nesta casa nova, que ainda é estranha, auxiliada por uma pessoa nova, que ainda me é estranha, me fiz esta pergunta. Junto com Miquele, que está começando a me ajudar a cuidar da casa, vi onde colocar roupa suja, onde estavam os lençóis limpos, o que faríamos para o almoço, os panos de prato que estão de molho, o remédio que a cachorra precisa tomar, o melhor lugar para colocar calcinhas e onde afinal acharei espaço para as roupas de frio neste guarda-roupa tão pequeno.
Sou escritora, não porque haja fãs e leitores atrás do que eu escrevo. Não porque publiquei um livro e poucos leram. Não porque atendo por esta alcunha. Sou escritora porque nasci assim. Algo congênito, como um defeito, uma fenda no nariz, uma síndrome de Down, uma perna faltando, uma disfunção num coração iniciante.
Sou escritora porque sim. E nunca saberei explicar isso. Vou ensaiando respostas interessantes, vou me preparando para entrevistas importantes. Serei lida, citada, um dia? Não me importa, exatamente. Vivi histórias muito delicadas com leitores do meu livro Fábulas Delicadas. E ouvi pessoas lendo meu texto emocionadas. Isso me devolveu emoção, me mobilizou também. Mas não me deu respostas. Sou escritora e isto é quase um vexame. Porque, sinceramente, pouco me importa se o cobertor vai ficar no lado esquerdo ou direito do quarto, pouco me importa se vamos comer carne refogada com batata ou refogada com cenoura. Quero a casa limpa. Gosto de cheiros bons na cozinha. Quando quero, cozinho bem. Adoro limpar um banheiro até não achar nem um fiozinho de sujeira, do jeitinho que minha mãe, super zeloza, me ensinou. Mas eu sou feita de pensamentos ciganos. Sou feita de ritmos estranhos. Sou uma composição estranha para mim mesma e me reconheço nas pessoas que estão loucas pela rua. Como se eu fosse o começo da loucura delas. Gosto de ouvir as histórias das pessoas. E imaginar outras. A dor das pessoas me dói tanto. Não posso suportar que uma criança sofra. Um dia fui visitar uma amiga que havia tido um filhinho. E eu me perdi nos corredores do hospital, entre o berçário e o quarto dela. Ouvia o choro alto de um bebê e fui me perdendo mais ainda, cheguei nas lavanderias, os funcionários me olharam, perplexos e me orientaram, para achar o caminho de novo. Isto um dia vai ser um conto? Uma cena de roteiro de meu primeiro filme? O bebê chorando sem parar entrou dentro da minha cabeça e virou uma história minha.
Eu não sei se existe uma escrita feminina em mim. Eu sei que sou uma mulher esquisita. Com uma síndrome estranha, que me faz escritora. Quer eu queira, quer não.

7 comentários:

Saulo Moreira disse...

Beleza-pérola.Vc me escorreu por dentro.Dentro de agora, de antes, do futuro.

Mario Fausto disse...

Isso é algo que vamos descobrindo. Sei é que aí tem uma professora que deixou saudades.

Preta Guerra disse...

Escritora, das melhores. Que sai carregando malas, livros, textos e corações por onde passa...

Lidi disse...

Adorei. E me identifiquei com as tuas palavras. E que bom que você tem essa síndrome que te faz ser escritora. Fico feliz por ser uma das leitoras da tua escrita forte e delicada. Bjs

Chorik disse...

Esquisita. Como todas as mulheres interessantes deste mundo de inscrições sempre abertas.

Ludmila Rohr disse...

Sim, voce é uma escritora...mas não como um defeito de nascença...
Vc é uma escritora como um Dom...algo mágico que poucos tem.
A gente pode aprender a cozinhar e até mesmo a limpar um banheiro como sua mãe te ensinou, mas ninguém aprender a SER uma escritora.
Apenas, se É!

andréa.mascarenhas disse...

Oi querida! Gostei da indefinição, do sem-certeza necessário a todos nós. Militante ou não, partidária ou não sua escrita se inscreve em quem se propõe a lê-la e isso é que é interessante, independente, contagiante!
Bj grandee e segue assim-assim!