quinta-feira, 28 de abril de 2011

Dia novo

O dia novo, a princípio, é um dia velho. Nasce com previsão fixa de encerramento. Mesmo que você se movimente de modo grotesco, grite em tons e alturas de quebrar vidros, diga coisas em línguas estrangeiras e mortas, use bombas ou faça greve de fome, o dia não será maior nem menor. Estará sempre reduzido ao seu próprio tamanho, incansável. O dia novo, visto como um pano branco, que não é e nunca será, pode ser, metaforicamente, bordado. E você, ainda inseguro com agulhas e linhas, pode tentar fazer deste dia um painel distinto, um quadro variado, uma peça de arte qualquer. No mínimo, o dia novo pode ser uma parede branca. Sem musgo, sem rachaduras, sem marca de águas, sem sinais do tempo. Uma parede branca higiênica, talvez repleta de azulejos brancos de hospital. O dia novo pode ser assim, como a primeira vez que o bebê chora quando chega ao mundo. Parece novo, mas já é velho e com previsão fixa de encerramento. Porque afinal, e para nossa salvação, tudo tem previsão fixa de encerramento: o dia, o muro, o bordado, o grito, as agulhas, as águas, o musgo, as rachaduras, o bebê, o hospital, o pano, os azulejos, os vidros, as línguas - estrangeiras e mortas, as bombas, as greves, a fome, a arte, os quadros, as paredes. Só o tempo continuará, brincando de nos esconder.

2 comentários:

Chorik disse...

Meu tempo se esgota. E ainda não sei dizer adeus.

Daniel Farias disse...

que saudade eu estava de suas palavras. deixo um beijo